sexta-feira, 25 de abril de 2014

Conhecer o índio de carne e osso


A professora Ingrid Lindner, da Escola Barão de Blumenau, minha amada esposa, iniciou no ano passado um trabalho cultural/social com a sua turma do quarto ano, voltado a desarmar preconceitos em relação a outros povos e culturas, especialmente em relação ao povo Xokleng que vive na Reserva Duque de Caxias. Graças a seu empenho, todas as turmas do quarto ano da Barão estão indo à Aldeia Bugio, em Dr. Pedrinho (SC), visitar a bela trilha que jovens indígenas organizaram na floresta, bem na nascente do Rio Benedito. É um lugar preservado que, entre outras espécies, tem centenas de exemplares do raríssimo xaxim-bugio - outrora dizimado para fazer potes para orquídeas, também impiedosamente arrancadas da nossa belíssima mata atlântica.

As visitas têm sido um banho de cultura e cidadania. A trilha montada pelos jovens indígenas se transformou numa fonte de renda para eles, e contribui para fixar os jovens na aldeia, além de ajudar no resgate da cultura do seu povo, que é mostrada num lindo momento de convivência entre os alunos da escola e xokleng de todas as idades. Tudo isso é um banho de imersão fenomenal em outra cultura, aproximando pessoas que se descobrem iguais. Ela mesma nos conta, num inspirado texto de Cordel que ela criou para contar a visita. Veja:



Cordel sobre a viagem a Aldeia Bugio, em Doutor Pedrinho.

O Quarto ano aprendeu
O índio na vivência conheceu
Viajou duas horas a fio
Para chegar à Aldeia Bugio
Onde, ainda que frio,
Nosso coração se aqueceu.

Na recepção, quanta alegria,
Já se foi o preconceito.
A amizade logo se instalaria:
São iguais, tem o nosso jeito!
Até os cães eram dóceis, quem diria,
E trilheiros preparados pra folia.

Planejada com segurança,
A trilha avança na mata atlântica.
Quantos segredos ela esconde
Mas os índios a conhecem
E a todos esclarecem.
Na esperança de vitória
Vão contando sua história.

No caminho há muita surpresa,
água cristalina, que beleza!
Com velha sabedoria foi ensinado
A beber com copos de caeté enrolado.
E vi os dois grupos em sintonia
As diferenças sumiram por magia.

Mais adiante, numa cabana de sapé
Cheia de adultos e crianças índias, pode crer.
Ali comemos carne e capu
Tudo assado em gomos de bambu
Junto com chá de folha de sassafrás
Numa roda que emanava muita paz.

Era hora de ouvir o velho índio contar
na língua Xokleng todo o seu penar.
Tribo de vida sofrida, com bugreiros a gritar:
Olhem os bugres, vamos matar!
Não sou bugre, sou brasileiro,
E nesta terra fui o primeiro.

Os brancos, o governo pagava,
Pelo número de orelhas que juntavam
Enfiadas Num imenso colar
Para a caçada comprovar.
Nem o velho grande escapou
e seu corpo no rio se atirou.

Em silêncio ouvimos sofrimento naquela voz.
E em seguida a tradução da história atroz.
Que tristeza, quanta maldade,
Gente que não entendia a diversidade.
O velho Xokleng, que agonia,
Ao nos historiar ainda sofria.

Um grande círculo se formou
A curiosidade sempre aflorou
Um canto com eles entoei
A letra era Xokleng, estranhei
Mas a melodia eu conhecia
Em seguida também cantaria.

A hora voava, o tempo corria,
Cadê os colares, o arco e flecha, que não se via?
Começou o escambo e adornamos o coração;
Agora sim, éramos todos da mesma nação.
Brasileiros sem preconceitos, amando a natureza
E do povo Xokleng vimos toda sua beleza.

O preconceito se foi e o respeito nasceu
A diversidade de cultura em mim cresceu
A cidadania em nós se instalou
E ao ver um índio ninguém mais estranhou.
Uma grande lição aprendi
Que nenhum ser humano se deve excluir.

Autora: Ingrid Lindner


segunda-feira, 14 de abril de 2014

A barbárie diante da porta

Cena 1: Jovem, 21 anos, carro na mão, madrugada, balada e festa... Pressa desnecessária, absurda, incompreensível... Encontra um veículo à sua frente, com um casal a bordo... Rua Tuiuti, na minha cidade natal, Rio do Sul... A moto é considerada um obstáculo a ser superado... como num videogame... O jovem arrogante encosta, ameaça passar por cima... O Casal protesta...

Cena 2: O jovem de 21 anos avança, encosta na moto e derruba co veículo com o casal a bordo... Em sua sanha, não se intimida. A mulher cai debaixo do seu veículo... Ele continua o seu glorioso passeio, com a mulher debaixo do seu carro... Por 100, 200, 300 metros... meio quilômetro... Um taxista o aborda para que pare. Perto dos 800 metros ele finalmente pára... Foge do local, o covarde.

Cena 3: A mulher embaixo do carro está milagrosamente viva... Mas o capacete desgastou-se até o forro (veja a foto)... Ela tem os dois seios seriamente mutilados, pelo atrito contra o asfalto. Ela está internada e seu estado é desconhecido.

Cena 4: Ontem à tarde finalmente o apressado jovem de 21 anos se apresenta à polícia. Chora como criança. Tenta enganar a polícia e todo mundo, dizendo que "não percebeu" a mulher debaixo do carro... Como é que alguém anda quase um quilômetro com o corpo de uma pessoa embaixo do seu carro e NÃO PERCEBE???

Esse tipo de atitude absurdamente revoltante não escolhe mais lugar... Há pouco, era coisa de São Paulo, do Rio de Janeiro... Agora, vejo cenas como esta acontecendo na minha pacata Rio do Sul... É a barbárie completa, dentro da nossa casa, no nosso nariz.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

A farsa dos dois demônios


A nova investida do Dr. César Zillig no SANTA de hoje, 07 de abril, com sua absurda teoria do mal menor necessário para evitar que o Brasil virasse uma Cuba, defendendo o golpe militar de 1964, é um grito de uma parte da nossa sociedade que tenta justificar a qualquer custo aquelas barbaridades. Ela se baseia numa farsa histórica, segundo a qual havia dois demônios em batalha: o comunista e o verde-oliva. A teoria se destina a maquiar a história para justificar a violência dos coturnos e joga com a batida teoria do combate aos terroristas. A esmagadora maioria que estava contra o golpe NÃO ERA de terroristas. Eu era contra o regime militar e nunca fui terrorista. Aliás, odeio armas, nunca peguei em armas e, só por isso, a única cor verde-oliva que eu aprecio é a das azeitonas (adoro!).

Não vou mais argumentar. A gente cansa...

Sobre a farsa histórica dos dois demônios, prefiro deixar aqui as palavras de Breno Altmann. Confira.

terça-feira, 1 de abril de 2014

1964, UM LAMENTO (Ridardo Gondim)


CONTAGEM REGRESSIVA 0 – NUNCA MAIS

Hoje, há 50 anos, o Brasil entrava de cabeça no período mais terrível da sua história política. Foram 21 anos de cerceamento das liberdades individuais e políticas, em nome da falácia de combater o comunismo. Os partidos foram extintos, o congresso foi fechado, os opositores foram perseguidos, torturados e mortos, muitas vezes em processos kafkianos (Leia o livro "O Processo", de Franz Kafka). Quem ousava falar, insinuar ou até mesmo pensar diferente, vivia escondido pelos cantos...

Para este dia, um magistral texto do filho de preso político Ricardo Gondim. Ainda menino, ele viu o seu pai sendo preso no primeiro dia do golpe, 1 de abril de 1964. Além do texto abaixo, confira outras reflexões do pastor Da Assembleia de Deus Bethesda, contando sua saga pessoal com um regime que, em nome de sua ideologia torta e a serviço do Big Boss, voltou-se contra o seu próprio povo. Confira: 



Madrugada de 1 de abril de 1964. O sol, envergonhado, sujeita-se às sombras. Nas estradas tortuosas de Minas Gerais, tanques, feito lesmas diabólicas, se arrastam rumo ao Rio de Janeiro. Nuvens se encolhem no belo horizonte. Um país inteiro assume a posição fetal. Declaro vaga a presidência da república, grita um golpista na Câmara dos Deputados em Brasília. Canalha, reage Tancredo Neves. Acabou-se a democracia. A Constituição está rasgada. Na vassalagem coletiva, a bandeira chora sangue.
O 1 de abril de 1964 permanece vívido em mim. Traumas de um pré-adolescente. Como esquecer? A família ao redor da mesa e mamãe lendo, em alta voz, a carta de despedida que papai conseguiu fazer chegar até nós. Ele não tinha ideia de seu rumo. Onde seria mantido em cativeiro?

Revejo mamãe grávida e espalho cinzas sobre minha calva. Contemplo seu desespero. Sem lugar para morar com os 5 filhos, grávida de gêmeos e sem salário. Sinto-me só ao seu lado. Cogito contratar carpideiras com ordens específicas de prantearem a nossa sorte. O jipe da aeronáutica estaciona na pracinha da Gentilândia trazendo notícias tristes. Ele realmente foi preso. Será mantido incomunicável. Papai é um subversivo e a partir daí, um pária. Trancamos a porta de entrada da casa e choramos. Somos a ponta mais frágil do processo ardiloso de políticos, intelectuais, jornalistas, religiosos, empresários e militares que jogaram o país numa ditadura. 
(Leia o restante do texto aqui. Confira também outros textos de Gondim sobre sua saga pessoal durante a ditadura, uma reflexão necessária e dolorida).

DEPOIS DE WORMS, A CAÇADA A LUTERO

No último dia da Dieta de Worms, 26 de maio de 1521, já sem a presença de Lutero, foi decretado o Édito de Worms. O documento fora redigido ...