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Lições da história, quem as aprende?

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Datas de tragédias sempre evocam a necessidade de "não esquecer". A lembrança de genocídios têm a pretensão de repassar uma lição: "para que jamais se repitam". A dramática pergunta que fica é o da efetividade dessas lições. Aprendemos realmente com a história? Recordar ensina? Eu fico em dúvida. Faz 70 anos, por exemplo, que somos insistentemente relembrados das barbaridades do holocausto protagonizado pelos nazistas. Apesar disso, ele já se repetiu incontáveis vezes nessas poucas décadas do pós-guerra. Alguns poucos eventos para refrescar a nossa memória. O genocídio cambojano levado a cabo por Pol Pot e seu regime do khmer vermelho (1975/79) executou 2 milhões de pessoas. O apartheid na África do Sul (1948/94), regime racista da minoria branca contra a maioria negra, que nos legou a impressionante lição de Nelson Mandela sobre igualdade racial e prática do perdão, mas que não aprendemos, nem lá, nem aqui. O genocídio de Ruanda (1994), no qual extremistas hutus e…

A Revolução Francesa e o Clima

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Um exemplo interessante da ligação entre o clima e a história vem da Revolução Francesa. A queda da Bastilha em 1789 tem muitos fatores de longo e de curto prazo, de ordem política, cultural, econômica e social. Mas não foi somente uma população cansada do feudalismo que decidiu livrar-se de seus opressores.
Um desses fatores foi o crescimento populacional em mais de dez por cento nos últimos 20 anos antes da revolução. Desde 1770 a agricultura não dava conta de produzir o que era consumido, além de ser tecnicamente atrasada. A armazenagem era precária e insuficiente, a irrigação ruim, o modo de plantio ultrapassado, o trabalho de plantar, colher e beneficiar era todo manual e os agricultores não aceitavam novas técnicas.
Com isso, obviamente as colheitas eram escassas e não havia estoques, abrindo graves brechas na economia para problemas em caso de insucesso numa colheita ou tragédias meteorológicas. Uma enorme cratera começou a abrir-se com uma crise de fome em 1770 que atingiu t…

El Niño

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Quem ainda não ouviu falar dele no Vale do Itajaí? "El Niño" (do espanhol "O Menino" e lê-se El Ninho) é o maior fenômeno climático natural que ocorre no nosso planeta. Tem este nome porque costuma ocorrer por volta do Natal, em média a cada sete anos, por isso a referência ao Menino Jesus. Pela bagunça celestial da última noite, estamos em pleno campeonato de bolão do El Niño.
O fenômeno ocorre bem longe daqui, na mudança da temperatura das águas do Oceano Pacífico, na Corrente de Humboldt. Isso muda a realidade de chuvas e secas em todo o Hemisfério Sul e parte do Hemisfério Norte do planeta. Afeta a América do Sul e Central, a África, a Ásia e a Oceania, provocando reviravoltas gigantes no clima nessas regiões. Chuvas e enchentes aqui no Sul e seca no Centro Oeste e no Sudeste estão na pauta.
Entretanto, tem vezes que ocorre um chamado Mega El Niño. Os últimos aconteceram em 1975/76 e em 1982/83 (este último de triste lembrança para o Vale do Itajaí). Nesses even…

Um bom termômetro do preconceito

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A venda de ingressos das Olimpíadas de 2016 vai de vento em popa. Já no início de agosto, 3 milhões de ingressos de um total de 7,5 milhões disponibilizados para o Brasil foram vendidos, segundo o Comitê Rio 2016. Hoje começa a segunda fase dessa venda, com cada ingresso sendo disputado a tapa. O mesmo não se repete em relação aos ingressos da Paralimpíada. Menos de 10% foram vendidos na primeira fase. Mesmo com os argumentos da matéria do Estadão, buscando explicações para a baixa procura, na minha opinião o preconceito transparece aqui. Estão perdendo a oportunidade de contato imediato de primeiro grau com incontáveis casos de superação e lições de vida! Além de superarem as limitações impostas pelas suas deficiências, os atletas paralímpicos ainda têm que superar o descaso, o preconceito e a falta de apoio da sociedade. Nenhum deles ganha o rio de dinheiro que os patrocinadores investem nos atletas considerados "normais".

Solidariedade seletiva?

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Algumas notas do Twitter, nesta terça-feira pela manhã, chamaram a minha atenção. Eles sugerem que a solidariedade aos refugiados deve ser seletiva, ou seja, somente alguns países e pessoas estão devidamente preparados para receber e atender essas pessoas. Para contextualizar minha argumentação, primeiro um histórico dos posts do pastor Ricardo Gondim, da Assembleia de Deus Bethesda, que vem dizendo com profundidade diaconal e teológica que a situação dos refugiados é nosso atestado de desumanidade e que é preciso fazer mais do que lamentar. É preciso agir. Gondim colocou a sua Igreja à disposição para receber refugiados. "Vocês são bem-vindos no Brasil", disse, abrindo as portas. Num post de hoje pela manhã, acompanhado de uma foto de uma família muçulmana, ele foi categórico: "Lamento informar, evangélico fundamentalista: considero essa família refugiada ao mesmo tempo brasileira e nossa irmã". Mas a opinião dos fundamentalistas religiosos sobre pessoas de religi…

Onde estarás, que não te ouvimos?

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Este homem é Khaled al-Asaad (82 anos). Segundo seus pares, ele é insubstituível. Arqueólogo-chefe das pesquisas em Palmyra há 50 anos, na Síria, ele foi barbaramente assassinado esta semana. O Estado Islâmico o enforcou, decapitou, e exibiu seu corpo mutilado ao público. Antes, eles o torturaram barbaramente. Queriam que ele revelasse o esconderijo dos tesouros arqueológicos sob sua guarda, que o EI comercializa num bem-sucedido mercado negro de relíquias arqueológicas.

O lucro desse mercado negro se transforma em armas, sustenta as milícias do EI, paga o terror absoluto em nome de Alá. Quem compra esses objetos cobiçados do passado? Europeus, americanos, gente do mundo inteiro, que não se detém um segundo para pensar no que a sua cobiça se converte.

Ah, sim, antes que eu esqueça, Palmyra é um dos mais importantes sítios arqueológicos da humanidade, cidade do império semita, fundada no século IV antes de Cristo. Este patrimônio histórico da humanidade está desde maio nas mãos do EI,…

Obama mostra que a África existe

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A respeitosa visita do presidente americano Barack Obama ao Quênia, terra de seus familiares, tem um significado que mal conseguimos avaliar aqui, do outro lado do Atlântico. Foi necessário que um descendente de quenianos, negro e herdeiro histórico da escravidão se tornasse presidente da mais poderosa nação do planeta para que se fizesse o gesto de perceber que a África existe. Obama mostrou que a África existe. E isso não é pouco, creiam! A propósito de sua visita, recorto um trecho de um livro terrível, mas que apresenta a dramática conta da passagem do cristianismo pela humanidade. É um trechinho apenas, mas que mostra porque a África é o que é, ainda hoje, graças sobretudo a incursões em busca de escravos, realizadas com a Cruz de Cristo impressa nas bandeiras e esculpida no metal dos cabos das espadas: “As contínuas incursões dos escravistas por quase trezentos anos destruíram a economia de vastas áreas da África, privando populações inteiras de sua melhor mão-de-obra, o que fez…