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Um mar de lama, dois pesos e duas medidas

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Há um ano e dez meses, o segundo maior incêndio da história do Brasil matava 242 jovens e deixava mais de 600 feridos. Os donos da boate Kiss e a banda que fazia um show (com efeitos pirotécnicos) no palco foram presos no dia seguinte. Há incontáveis erros no processo, mas houve prisões. Agora a absurda irresponsabilidade ambiental de mineradoras, negligência do poder público e dos órgãos fiscalizadores são responsáveis pela maior tragédia ambiental do Brasil. A mineradora Samarco não soterrou apenas uma indefesa vila em Mariana. Não há somente dois mortos e uma dezena de desaparecidos. Um mar de lama real eliminou qualquer vestígio de vida e comprometeu por décadas o ecossistema de toda uma bacia hidrográfica mineira, e não haverá operação lava-jato capaz de limpar toda aquela sujeira. A natureza terá que se virar para eliminar toda aquela lambança. O rio doce, agora insalubre, que se vire para voltar a ser doce algum dia. Daqui há 50 anos talvez tenha um ou outro peixinho nadando ne…

Quando o Sol desaparece

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Dois meses sem sol começam a ter efeitos devastadores sobre as pessoas. Um incontrolável sentimento de melancolia começa a nos dominar. Segundo os estudiosos, a história do clima nos ajuda a entender. Em regiões de longos e escuros invernos, seguidos de primaveras e verões chuvosos e com o céu encoberto na maioria dos dias, populações inteiras são mais propensas à melancolia. Esse clima depressivo que domina todos é hoje descrito como SAD, Seasonal Affective Disorder, que aparece quando o sol desaparece, levando muitos a um exagerado sentimento de tristeza e até mesmo, em alguns lugares, aumentando inclusive o número de suicídios. Os sintomas agudos da SAD manifestam-se como problemas de sono, letargia, falta de apetite, depressão, problemas sociais, sentimentos de medo, perda da libido e mudanças repentinas de humor. Não é por acaso que muitos se queixam de baixa imunidade e do aparecimento de infecções. A luz e as trevas têm forte influência sobre a cultura e a religião. A própria B…

Justiçamento é justiça?

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Esta é uma pintura obviamente mórbida. É do pintor holandês Pieter Brueghel (1525-1569), com o título "O Triunfo da Morte". Num mar de caveiras espalhando o terror da morte, chama a atenção no horizonte uma floresta de forças e instrumentos de execução, que fazem menção a um tempo na história da Europa em que a pena de morte era um recurso fácil da justiça. No século 16, o aumento da criminalidade levou ao crescente endurecimento das leis, onde a tortura era mais corriqueira do que em qualquer outro período da história antes ou depois desse tempo e as execuções alcançaram números nunca registrados. Um viajante que chegasse, por volta de 1600, a qualquer das grandes cidades europeias, antes de chegar aos portões da cidade tinha que passar por um absurdo espetáculo de horror. Cadáveres de malfeitores e ladrões em putrefação estavam pendurados em forcas ao longo do caminho. O objetivo desse teatro macabro era intimidar potenciais malfeitores e passar a impressão de que uma orde…

Lições da história, quem as aprende?

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Datas de tragédias sempre evocam a necessidade de "não esquecer". A lembrança de genocídios têm a pretensão de repassar uma lição: "para que jamais se repitam". A dramática pergunta que fica é o da efetividade dessas lições. Aprendemos realmente com a história? Recordar ensina? Eu fico em dúvida. Faz 70 anos, por exemplo, que somos insistentemente relembrados das barbaridades do holocausto protagonizado pelos nazistas. Apesar disso, ele já se repetiu incontáveis vezes nessas poucas décadas do pós-guerra. Alguns poucos eventos para refrescar a nossa memória. O genocídio cambojano levado a cabo por Pol Pot e seu regime do khmer vermelho (1975/79) executou 2 milhões de pessoas. O apartheid na África do Sul (1948/94), regime racista da minoria branca contra a maioria negra, que nos legou a impressionante lição de Nelson Mandela sobre igualdade racial e prática do perdão, mas que não aprendemos, nem lá, nem aqui. O genocídio de Ruanda (1994), no qual extremistas hutus e…

A Revolução Francesa e o Clima

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Um exemplo interessante da ligação entre o clima e a história vem da Revolução Francesa. A queda da Bastilha em 1789 tem muitos fatores de longo e de curto prazo, de ordem política, cultural, econômica e social. Mas não foi somente uma população cansada do feudalismo que decidiu livrar-se de seus opressores.
Um desses fatores foi o crescimento populacional em mais de dez por cento nos últimos 20 anos antes da revolução. Desde 1770 a agricultura não dava conta de produzir o que era consumido, além de ser tecnicamente atrasada. A armazenagem era precária e insuficiente, a irrigação ruim, o modo de plantio ultrapassado, o trabalho de plantar, colher e beneficiar era todo manual e os agricultores não aceitavam novas técnicas.
Com isso, obviamente as colheitas eram escassas e não havia estoques, abrindo graves brechas na economia para problemas em caso de insucesso numa colheita ou tragédias meteorológicas. Uma enorme cratera começou a abrir-se com uma crise de fome em 1770 que atingiu t…

El Niño

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Quem ainda não ouviu falar dele no Vale do Itajaí? "El Niño" (do espanhol "O Menino" e lê-se El Ninho) é o maior fenômeno climático natural que ocorre no nosso planeta. Tem este nome porque costuma ocorrer por volta do Natal, em média a cada sete anos, por isso a referência ao Menino Jesus. Pela bagunça celestial da última noite, estamos em pleno campeonato de bolão do El Niño.
O fenômeno ocorre bem longe daqui, na mudança da temperatura das águas do Oceano Pacífico, na Corrente de Humboldt. Isso muda a realidade de chuvas e secas em todo o Hemisfério Sul e parte do Hemisfério Norte do planeta. Afeta a América do Sul e Central, a África, a Ásia e a Oceania, provocando reviravoltas gigantes no clima nessas regiões. Chuvas e enchentes aqui no Sul e seca no Centro Oeste e no Sudeste estão na pauta.
Entretanto, tem vezes que ocorre um chamado Mega El Niño. Os últimos aconteceram em 1975/76 e em 1982/83 (este último de triste lembrança para o Vale do Itajaí). Nesses even…

Um bom termômetro do preconceito

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A venda de ingressos das Olimpíadas de 2016 vai de vento em popa. Já no início de agosto, 3 milhões de ingressos de um total de 7,5 milhões disponibilizados para o Brasil foram vendidos, segundo o Comitê Rio 2016. Hoje começa a segunda fase dessa venda, com cada ingresso sendo disputado a tapa. O mesmo não se repete em relação aos ingressos da Paralimpíada. Menos de 10% foram vendidos na primeira fase. Mesmo com os argumentos da matéria do Estadão, buscando explicações para a baixa procura, na minha opinião o preconceito transparece aqui. Estão perdendo a oportunidade de contato imediato de primeiro grau com incontáveis casos de superação e lições de vida! Além de superarem as limitações impostas pelas suas deficiências, os atletas paralímpicos ainda têm que superar o descaso, o preconceito e a falta de apoio da sociedade. Nenhum deles ganha o rio de dinheiro que os patrocinadores investem nos atletas considerados "normais".