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Perguntas e Respostas

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Há um momento sublime no encontro entre duas pessoas, que é a suspensão completa da tagarelice. Silêncio litúrgico. Encontro total, em aceitação e respeito plenos. Nada de perguntas. Nada de respostas. Por que as respostas são tão imprescindíveis, inadiáveis, inolvidáveis? Malditas as perguntas que não querem calar! Por que tantas perguntas que eu não posso, não sei e não quero responder? Pior que as suas perguntas é a minha própria necessidade de ser inquirido. Por isso, vou esforçar-me para não dizer "você deve estar se perguntando...". Vamos combinar assim, eu não lhe faço perguntas e você não exige de mim respostas. Vamos permanecer apenas caminhando e contemplando. Eu sendo plenamente eu, você completamente você. Vamos seguir assim, lado a lado, em silêncio, seguidos apenas por nossas pegadas...

Vamos acabar todos cegos

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"Olho por olho, e acabaremos todos cegos". Esta frase de Gandhi faz referência à lei do Talião, que consiste na rigorosa reciprocidade entre crime e pena, apropriadamente chamada retaliação.
O Antigo Testamento explica em detalhes como ela funciona: "Mas se houver morte, então darás vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe (Êxodo 21.23-25). A justiça moderna rechaça a lei do talião. As penas previstas em lei para os crimes não se baseiam na retaliação pura e simples. Embora a pena de morte seja praticada formalmente em mais de 20 países, mais de 90 a rejeitam totalmente. O Brasil praticou a pena capital regularmente até a proclamação da república. Embora tenhamos assinado o protocolo de abolição dessa pena, ela ainda está na nossa lei em caso de crime de guerra, veja só. Mas, o que me leva ao tema é a dramática constatação de que no ano passado a Pena de Morte bateu um novo recor…

O país do grito

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Em um dia qualquer de setembro, cerca de dois séculos atrás ou pouco menos, surgia uma insólita nação. Registra a história oficial que um grito forjou o tal país. Foi assim... Um príncipe infante, deixado para trás por uma família real suja e desmanzelada, de uma corte hilária e insignificante, devia reger um potentado que, à semelhança de um filhote de elefante, mal sabia o tamanho do próprio corpanzil. O menino-príncipe-regente fazia as vezes de mandatário de 22 capitanias hereditárias precariamente aglutinadas em torno de um inchado e voraz formigueiro real, onde se fingia reinar sobre um reino de gambiarras. Em busca de conhecer o projeto de país que herdara da corte familiar fujona, que o deixara na penúria ao limpar os cofres do banco real, o príncipe de barba cheia em franco desenvolvimento montou em lombo de mula para conhecer a sua herança. Entre insetos e serpentes, onças, pacas, antas e capivaras, sendo observado por bandos de monos do alto de florestas impenetráveis, nosso…

O que precisa ser dito sobre a crise dos refugiados

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A decisão absurda da Dinamarca de confiscar dinheiro dos refugiados colocou uma pulga na minha orelha. Dei um Google sobre a colonização da África e descobri este mapa de como a Europa havia dividido o continente entre si no século 19. Ali começou a crise africana, pois nada respeitaram, nem mesmo tribos inimigas. Arrancaram tudo que podiam em pouco mais de meio século e deixaram um rastro de sangue, devastação e morte. Entre os que mais lucraram com esta divisão da casa alheia estão a França, a Alemanha, a Inglaterra. a Itália e a Bélgica (portugueses e espanhóis fizeram a sua maldade em outros tempos). Agora, só a Alemanha parece disposta a reparar ao menos um pouco os danos causados, recebendo os refugiados em massa (embora com crescente revolta interna). França, Inglaterra e Bélgica resistem como cães ferozes à onde migratória dos refugiados africanos, embora tivessem enriquecido explorando aquela gente. E a Dinamarca? Ela não consta desta lista de colonizadores. "Mas eles ta…

David Bowie e Christiane F.

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Vai-se mais um dos grandes do rock britânico. Bowie lançou seu mais novo trabalho musical no dia em que completou 69 anos, em 8 de janeiro. Dois dias depois (domingo 10), o camaleão do rock foi vencido pelo câncer, numa luta que travou por um ano e meio contra a doença. Para mim, que usei diversas vezes o filme "Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída..." em sala de aula para falar sobre drogas, inclusão e aceitação, com posterior debate em forma de juri, ele jamais vai sair da memória. Bowie faz uma ponta no filme, com um show em Berlim, durante o qual Christiane e seus amigos da rua Kurfürstendamm se drogam. Christiane é fissurada em Bowie. Chama a atenção uma cena do filme, em que ela ganha um LP de Bowie de presente do namorado de sua mãe e, em seguida, o guarda entre seus discos, ao lado de outro LP dele, por acaso o mesmo, que ela já tinha. Durante o show no filme, o artista multi-performático canta sua emblemática canção "It's too late" (It'…

Aniversário de Lucy

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O Google avisa o mundo de que hoje é o aniversário de Lucy. Descoberta no dia 24 de novembro de 1974 no deserto de Afar, enquanto no acampamento dos antropólogos tocava "Lucy in the sky with diamonts" (Beatles), a fêmea de Australopithecus Afarensis de três milhões e duzentos mil anos voltava à vida para a ciência e o conhecimento da origem humana. Detalhe importante: ela era da Etiópia, um dos berços da humanidade e hoje um país miserável da África, que faz parte da triste lista dos países do mundo que experimentam fome extrema (Somália, Quênia, Etiópia, Sudão e outros). A imagem mostra o esqueleto descoberto e a provável aparência de Lucy, uma simpática mãe da humanidade. Seu corretivo dedo em riste nos adverte maternalmente: "O que vocês fizeram, meus filhos?".

Saudade / Sehnsucht / Heimweh

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Quando se fala em palavras do português que são intraduzíveis, todos logo lembram de "saudade" (Trilha sonora: "Saudade, palavra triste, quando se perde um grande amor..."). Os alemães adoram!  Mas o alemão também tem palavras intraduzíveis, de sentido específico. Para "saudade", eles têm duas palavras: "Heimweh" e "Sehnsucht". E, para mim, as duas são fortes.  A primeira quer dizer "dor de casa, da pátria, do lugar que amamos e consideramos nossolar"; uma dor difícil de descrever, mas dura de experimentar (Trilha sonora: "Heimatlos gibt´s viele auf der Welt; Heimatlos und einsam wie ich...). A segunda, "Sehnsucht", expressa "vontade de ver". É uma saudade das coisas ou pessoas amadas que estão longe e que faz tempo que não vemos. Mas sabemos que, a qualquer momento, podemos ir ao seu encontro e matar a vontade de ver (Trilha sonora: "Tô com saudade de você debaixo do meu cobertor"...).  Já &quo…