O religioso e o oficial

No sábado, 29 de julho, aconteceu a primeira Marcha Para Jesus de Blumenau. O evento, organizado pela Ordem dos Ministros Evangélicos de Blumenau, reuniu algo em torno de cinco mil fieis das igrejas evangélicas, que marcharam da Prefeitura até a Vila Germânica, onde ocorreram celebrações e cultos até a noite de sábado.
Como evento religioso, merece meu total respeito. Incomoda, entretanto, que a Marcha não é a priori um evento religioso, como se poderia concluir à primeira vista. É que ela é parte do Calendário Oficial do Município de Blumenau e está chancelada pela Lei nº 7.336 aprovada pela Câmara Municipal de Vereadores de Blumenau no dia 30 de março deste ano. O último sábado de julho, segundo esta lei aprovada em segundo turno, será dedicado todos os anos à Marcha Para Jesus.

Bem diferente é a missa dos motociclistas, do Padre João Bachmann. Um evento religioso, que não está no calendário oficial aprovado pela Câmara de Vereadores, mas botou cinco mil motociclistas nas ruas de Blumenau também, no domingo 30 de julho. Ele próprio motociclista, Padre João está mandando muito bem nesse Evento, que leva ao pátio da Catedral os amantes das duas rodas para ouvir uma mensagem e receber uma bênção, já que o nosso trânsito só pode ser enfrentado com bênção mesmo. Continue este evento, Padre João, mas não o transforme em Lei, beleza? Se for para lutar por leis que melhorem o nosso trânsito, que mata motociclistas toda semana, pode contar comigo.
Também os luteranos estão organizando eventos pelos 500 anos da Reforma. Oxalá não sonhemos com leis como esta 7.336. A manifestação pública da fé é um direito, para a Marcha para Jesus, para a Missa dos Motociclistas, para os desfiles pelos 500 anos da Reforma, para os nossos Dias da Igreja. Mas deixem a lei longe disso, por favor.
Como cabe à Câmara de Vereadores legislar, como ministro religioso dou um conselho grátis aos nossos ilustres edis. Deixem a sua fé fora da legislação municipal. Se quiserem ir à Marcha Para Jesus ou à Missa do Padre João ou, ainda, às celebrações da Reforma, façam isso! Faz muito bem dizer em público no que a gente acredita. Mas, conforme pregação de Vossas Excelências – que já tiraram o debate de gênero das nossas escolas por acharem que é “doutrinação”, misturar a sua religião com o ofício legislativo é doutrinação muito maior e, pior, é inconstitucional.

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