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Mostrando postagens de Setembro, 2009

Nosso amor pelos carros

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A reflexão sobre o que vamos fazer com relação à superpopulação de carros em nossas cidades é necessária e urgente. Porém, ainda vamos patinar muito na incoerência antes de encontrar uma saída razoável. O último dia sem carro se tornou um evento mundial e atinge até a indústria automobilística cada vez mais empenhada em criar novidades compatíveis com a nova onda preservacionista (combustíveis alternativos, eletricidade etc). Mas, confessemos, foi um fracasso! Em Blumenau havia 20 por cento mais carros nas ruas no dia sem carro do que em dias normais. Sim, choveu muito. Mas a chuva foi uma desculpa bem-vinda para o nosso comodismo, convenhamos.
A grande verdade é que temos uma relação doentia com essas carruagens. São construídas para as famílias, com quatro, cinco, sete e até nove lugares. Mas, a maioria deles anda por aí com um ocupante só; o seu orgulhoso dono.
No ano de 2009 estamos reproduzindo fielmente no Brasil o que acontecia nos anos 1940 e 1950 nos EUA, como mostra uma série …

Honduras, coturnos e democracia

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É muito impressionante ver como tem gente quieta no Brasil com essa história de Honduras. Não dizem nada. Nem um pio, para não revelar o que pensam realmente. Em seu íntimo, porém, estão batendo palmas para Micheletti e sua tropa, resvalando num indisfarçável saudosismo daqueles 20 anos de botautoritarismo que vivemos por aqui.
Na visão dessa horda de dissimulados adeptos da ditadura, os anos entre 1964 e 1985 foram a melhor coisa que aconteceu ao Brasil. Segundo eles, esse era um tempo de prosperidade, de ordem e de amor à pátria como nunca se viu, nem antes, nem depois.
Todo exército é absolutamente desnecessário. E falo do que eles sabem fazer – a guerra – e do que eles não sabem fazer – a política.
A humanidade não precisa da guerra e, por isso, não precisamos de soldados, de treinamento militar e de armas. A paz se constrói com pontes, não com armas. E construir pontes não é lição relevante na caserna, a não ser que seja para encurtar o caminho que conduz ao inimigo. O treinamento m…

Zukunftswerkstatt em busca do novo

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A Igreja Evangélica da Alemanha resolveu aplicar corajosamente a ideia da Oficina do Futuro (Zukunftswerksatt - veja post anterior) na própria casa. Passou o último final de semana (24 a 27 de setembro) reunida em Kassel, com mais de 1200 delegados de toda a Alemanha, em busca do sonho de uma igreja mais participativa. Na visão do presidente Wolfgang Huber, a Alemanha precisa ser re-evangelizada.
Há 20 anos, esta preocupação ainda era somente de humoristas e visionários, que não eram vistos como sérios o suficiente para serem considerados. Trago à memória o chargista e pastor Tiki, que publicou diversos materiais nos anos 80 antecipando a atual crise em seu traço sarcástico. Numa das charges que não me sai da cabeça, ele desenha a nave de uma enorme catedral cheia de bancos vazios e, dentro dela, uma pequena igrejinha de madeira repleta de fiéis, aos pés do majestoso altar da catedral. Diante deles, o pastor comemora: “Finalmente temos uma igreja lotada novamente!”. Em outras charges, …

Um método para exercitar a utopia

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Uma das mais admiráveis características do moderno povo alemão é a sua capacidade de planejamento. Impressiona a ausência quase absoluta do improviso, do jeitinho, da mudança de última hora. Antes da execução de qualquer projeto, ele foi exaustivamente estudado em todos os seus ângulos e nuances, no sentido de reduzir ao mínimo qualquer risco de surpresa ou falha.
Não só os grandes projetos são alvo de planejamento rigoroso. Cada passo do dia-a-dia é concretizado somente após o necessário tempo de preparo. Esse rigor no cuidado com o que se faz e as consequências de cada ato na vida pessoal e coletiva levou os alemães a desenvolver diversas teorias científicas que ajudam a planejar.
Uma dessas teorias, que me fascina, é a Zukunftswerkstatt (Oficina do Futuro), desenvolvida pelo futurólogo alemão Robert Jungk, com participação de Rüdigerr Lutz, Norbert R. Müllert e outros pesquisadores. Já no final dos anos 1980 eu participei de um seminário sobre o tema na Alemanha. Foi uma das melhores…

Ser vivo de estimação

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Uma experiência inusitada me fez refletir sobre um aspecto pouco considerado na nossa relação com os seres vivos que nos cercam. Aproveitando a bela manhã de sol, estávamos passeando no calçadão da beira-mar de Balneário Camboriú. Muita gente fazendo o mesmo, com a indisfarçada intenção de espantar o frio. Carrinhos de bebê das mais diversas grifes e cães… Cachorrinhos e cachorrões de todos os tamanhos eram solenemente conduzidos entre os humanos na calçada.
Ao chegar à Praça Central, um vendedor de orquídeas ainda organizava seus espécimes de uma das flores mais típicas do litoral brasileiro, embora nem prestemos tanta atenção nisso: a orquídea é nossa! E é de uma beleza tipicamente brasileira: quente e criativa. Ela se apresenta de tantas formas, cores e aromas diferentes que chega a confundir a gente. Desde muito pequeno admiro esta flor. Meu pai já tinha um orquidário e, quando tiver tempo, também vou ter o meu.
Minha esposa encantou-se com uma orquídea da terra, maravilhosa, cor de…

"Libertou-se o menino" em vídeo

O Williams e seu pessoal montaram um vídeo com o texto “Libertou-se o menino” e postaram no YouTube. Muito bacana! Veja você também. http://www.youtube.com/watch?v=0W0VUp_PeU0

Libertou-se o menino

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Livre. Finalmente o pequeno menino negro aprisionado no corpo do astro pop deformado e ensandecido pode voar para a sua Neverlândia imaginária, agora real. O pequeno prodígio havia sido aprisionado naquele corpo por causa do seu talento. Meio século de insuportável prisão. O ícone da pós-modernidade, rei do pop, o insuperável, inimitável e inatingível astro sufocou na angústia do seu pequeno ser, ainda tão inocente, tão bonito, tão angelical quanto antes.

Michael foi vitimado pela sua própria perfeição e morreu de fadiga, na insana tentativa de superar o insuperável, ou seja: ele mesmo. O pequeno príncipe havia sido engolido pelo próprio astro em que vivia.

Agora, está finalmente livre o menino. O que o mundo vela em Los Angeles é a fétida carcaça zumbi do rei do pop; do ídolo amalgamado pelas deformidades insanas da humanidade consumista. O menino não está mais lá. Jaz um corpo disforme, alvejado e plastificado pelo insaciável monstro capitalista, ele mesmo um zumbi que se nega a morre…

A lição de Armstrong

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Depois de sentir seu corpo colado ao banco da apertada cabine da Apolo 11, alojada na ponta do poderoso foguete Saturno V durante o lançamento no dia 16 de julho de 1969, e após passar quatro dias no espaço, o astronauta americano Neil Armstrong estava ansioso. Junto dele no módulo lunar estava também o astronauta Edwin Aldrin. Na Apolo 11, em órbita da Lua, estava o terceiro membro da equipe: o astronauta Michael Collins.
No comando do módulo lunar, Armstrong havia acabado de pousar na Lua no dia terrestre de 20 de julho de 1969. Prestes a abrir a escotilha, ele seria o primeiro ser humano a colocar os pés na fofa superfície do satélite da Terra. No distante planeta azul visível no horizonte, 1,2 bilhão de terráqueos estavam grudados à tela de suas TVs.
Ele sabia bem o inacreditável momento histórico que protagonizava. E também já sabia o que iria dizer tão longe de casa. Quando sua bota listrada tocou o poeirento solo lunar, ele disse: “É um pequeno passo para um homem, mas um gigante…

O ecumenismo é minha religião

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O ecumenismo é uma das minhas bandeiras mais queridas. Sempre imagino que, no dia do juízo final, Cristo vai convocar os apaixonados defensores da supremacia de suas próprias confissões e vai colocá-los frente a frente, determinando: “Agora, apertem as mãos e peçam desculpas um ao outro! Um abraço bem forte para terminar!”.
Católicos e protestantes, evangélicos e pentecostais, ortodoxos e conservadores, carismáticos e progressistas seriam conduzidos pelo Senhor a uma abraço fraternal universal e, depois disso, nos moldes de um curso de reeducação de motoristas infratores, teriam que participar de um curso de 30 horas-aula sobre os princípios básicos do ecumenismo e da convivência pacífica dos diferentes.
Seria ótimo se não precisássemos esperar até o derradeiro dia para que comece a ocorrer uma profusão desses abraços reconciliadores. Melhor ainda seria, se aumentasse o número de cristãos dispostos a participar do tal curso sobre os princípios básicos do ecumenismo. Ele existe em muitos…

Relações econômicas injustas

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Um dos nós mais bem amarrados do mundo é a persistente injustiça nas relações econômicas internacionais. Já há décadas o Brasil, por exemplo, vem oscilando entre a 11ª e a 9ª posição no compe­titivo ranking das maiores economias do Planeta. Após anos de reservas acumuladas mês a mês, o Brasil deixou de ser devedor para ser alçado ao status de credor na escala dos países. Agora está na lista dos países do mundo cuja economia merece confiança para investimentos futuros. A nona economia do planeta é tão grande que, por exemplo, todo o Produto Interno Bruto (PIB) da Argentina é equivalente ao PIB do estado de São Paulo, o mais industrializado do país. O PIB dos Emirados Árabes é o mesmo do estado do Rio Grande do Sul e o da Bulgária é semelhante ao do estado de Santa Catarina.
Toda essa competitividade do Brasil é destaque e faz com que o país tenha cada vez mais respeito internacional. Mas olhando para o lado de cima da escada econômica, é possível ver oito nações gigantescas do ponto de …

O olhar de Emmi

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Esta imagem me chamou a atenção. Trata-se de um animal de zoológico. Mas não é isso que me atrai na cena. Emmi, o animal da foto, tem oito anos. É uma fêmea de lêmure-de-cauda-anelada, que vive no zoológico de Tel-Aviv, em Israel. No domingo (29/03) ela apresentou seu filhote ao mundo pela primeira vez. Mas também não é só isso que despertou meu interesse nesta imagem.
O que me atraiu é o olhar de Emmi. Os olhos exageradamente grandes dos lêmures desapareceram em seu rosto. Seus olhos estão absortos, concentrados, voltados para um único ponto que se tornou o universo dela. É um olhar repleto de amor, carinho, plenitude. Nada, absolutamente nada em volta dela recebe mais atenção do que aquele indefeso e precioso ser vivo em seu colo. Mesmo olhando em outra direção, ela parece estar toda voltada para o filhote. Digo isso porque já vi o mesmo olhar diversas vezes, quando a nossa cadela teve filhotes. Sempre me impressionou. É o supra-sumo da condição de mãe.
Quando vejo como os humanos tra…

Quinze anos após o genocídio de Ruanda

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Um dos filmes mais impressionantes que já vi, reflete a mais crua realidade de que é capaz a insanidade humana. Em pouco mais de 100 dias, os hutus “abateram” (esta é a palavra mais adequada), a golpes de facão, um milhão de tutsis em Ruanda, na África. No mais espetacular sangue frio de que se tem notícia, milhares de vizinhos entraram na casa ao lado e esquartejaram a família inteira, do bebê ao avô. Não havia para onde fugir. As hordas de hutus “enfacãozados” golpeavam tudo que se movia. O nome do filme: Hotel Ruanda. O ano do fatídico genocídio: 1994.
Quinze anos se passaram. Tutsis e hutus são vizinhos novamente, nas ainda profundamente traumatizadas vilas do interior de Ruanda. Fala-se em pacificação, mas a desconfiança mútua ainda é muito grande entre tutsis e hutus. Muitos dos assassinos foram libertados das prisões abarrotadas; mais de 60 mil deles nos últimos anos. Até mesmo os protagonistas de um dos maiores genocídios da humanidade continuam soltos; alguns gozando de boa vi…

Derrubem todos os muros!

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Mais um muro na história da humanidade. Desta vez, na Argentina. Por iniciativa de Gustavo Posse, intendente de San Isidro, na Grande Buenos Aires, foi iniciada a construção de um muro. O objetivo alegado: reduzir a delinquência. A grande verdade: o muro protege os ricos dos pobres. Protestos, polícia e gente com forte espírito de cidadania fizeram a história chegar aos noticiários e impedem a continuação da obra (foto).
Já na idade média os ricos cercavam seus suntuosos castelos com gigantescos muros. Benevolentes, do lado de dentro colocavam artesãos, sacerdotes, comerciantes, caserna e mais uma dúzia de “castas” bem escolhidas. Tudo para que o castelo fosse bem servido. O resto ficava do lado de fora dos portões, à mercê dos inimigos.
O muro é uma proteção. Mas, ao longo de toda a história da humanidade, serviu exclusivamente para separar pessoas. Quase sempre fica bem claro quem é quem e de que lado do muro deve ficar. O menor dos direitos que o muro toma é o de ir e vir. O muro exc…

O livro de Chávez

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Durante oito anos, as relações entre os EUA e a Venezuela foram turbulentas. Chávez odiava Bush e Bush odiava Chávez. Muita gente odeia o Chávez. E mais gente ainda odeia o Bush. Não sei quem dos dois merece mais o resultado do que semeou…

Na minha visão, o Chávez é fruto da nossa conturbada história latino-americana e, ao seu modo, está tentando interferir nos rumos dessa história. Ele brigou com Bush, mas não quer briga de verdade com os EUA. Ele sabe que precisa deles. Afinal, ele viu em Cuba, ao vivo e a cores, onde pode levar um confronto direto. Coitado do povo cubano…

Mas, voltando ao Chávez, ele está de namoro com o Obama. Ele acredita que nem todos os americanos são iguais. Na sua tentativa de mudar as coisas, Chávez deu um livro a Obama. É um livro único, muito especial e antigo: “As Veias Abertas da América Latina”, do escritor e historiador uruguaio Eduardo Galeano. Eu li este livro em 1989.

A primeira edição foi publicada em 1970 e, apesar dos 40 anos e das dezenas de ediçõe…