O livro de Chávez


Durante oito anos, as relações entre os EUA e a Venezuela foram turbulentas. Chávez odiava Bush e Bush odiava Chávez. Muita gente odeia o Chávez. E mais gente ainda odeia o Bush. Não sei quem dos dois merece mais o resultado do que semeou…

Na minha visão, o Chávez é fruto da nossa conturbada história latino-americana e, ao seu modo, está tentando interferir nos rumos dessa história. Ele brigou com Bush, mas não quer briga de verdade com os EUA. Ele sabe que precisa deles. Afinal, ele viu em Cuba, ao vivo e a cores, onde pode levar um confronto direto. Coitado do povo cubano…

Mas, voltando ao Chávez, ele está de namoro com o Obama. Ele acredita que nem todos os americanos são iguais. Na sua tentativa de mudar as coisas, Chávez deu um livro a Obama. É um livro único, muito especial e antigo: “As Veias Abertas da América Latina”, do escritor e historiador uruguaio Eduardo Galeano. Eu li este livro em 1989.

A primeira edição foi publicada em 1970 e, apesar dos 40 anos e das dezenas de edições do livro, ele é antigo, mas não envelhecido. O presente de Chávez a Obama ressuscitou o livro de Galeano. Na mesma semana, ele saltou para o segundo lugar dos livros mais vendidos pelo site Amazon.com. É uma contribuição significativa, este presente do Chávez. Se Obama ler o livro com genuíno interesse, ele não será mais o mesmo depois da leitura, eu garanto. Se mais latino-americanos o lessem, também nossa história não seria mais a mesma.

Longe dos ranços ideológicos e de toda essa classificação idiota das pessoas em “de esquerda” ou “de direita”, o livro é a mais impressionante lição de história que eu tive na minha vida. É história viva, da qual se participa como se estivesse a acontecer no instante da leitura. É história contada com paixão, em forma de novela, para mudar os acentos, os protagonistas, os heróis. Sai Cortez e entra Montezuma, o imperador asteca. Sai Pizarro e entra Atahualpa, o imperador inca. A estupefação de Cortez diante de Tenochtitlán, a exuberante capital asteca, que é cinco vezes maior e mais organizada que Madri ou o dobro de Cevilha (maior cidade espanhola da época), faz dobrar também o ritmo cardíaco do leitor. Onde aprenderam suas lições os professores de história do ginásio, que não nos contaram nada disso?

“As Veias” é, sobretudo, a história de um saque que jamais terminou, desde 1492 até os nossos dias. Depois de arrasar Tenochtitlán e o império asteca, de colocar de joelhos o majestoso império inca, levando no bico o ingênuo Atahualpa, e de dizimar a metade da população indígena com doenças e armas nos primeiros 50 anos da conquista, os conquistadores passaram a saquear o continente. A “descoberta” vira o que foi realmente: uma impiedosa e interminável conquista.

Na era do renascimento, a América era só mais uma invenção; uma mina a céu aberto. Primeiro saquearam o ouro, as pedras preciosas e a prata, levados em quantidades tão impressionantes que custa a acreditar (e está tudo registrado nos livros dos contadores da época!). Depois, a cana de açúcar, o petróleo, a carne criada nos pampas, o minério de ferro e a bauxita. Hoje, cobiçam a Amazônia e plantam aqui suas indústrias pela mão de obra mais barata e lucros mais animadores. De resto, a eterna relação de dependência foi mantida com o capital, em grande parte, gerado aqui e centuplicado lá. Nossas fortunas financiaram a industrialização da Europa e a fortuna do primeiro mundo. A balança desigual do comércio internacional sempre garantiu que nós ficássemos com o mínimo. Em resumo, para Galeano, nossa riqueza foi justamente a nossa maior desgraça. Tínhamos a mina e viramos só a mão de obra para arrancar do seu interior as riquezas, das quais nunca usufruímos.

“As Veias” é uma patada nisso tudo. E provocou histórias incríveis, como a da moça que lia o livro para sua amiga no ônibus, em Bogotá, e se levantou para ler em voz alta para todos os passageiros. Ou a do estudante argentino que, por não ter dinheiro para comprá-lo, foi lendo o livro entrando de livraria em livraria, em Buenos Aires. Ao mesmo tempo, “os comentários mais favoráveis que o livro recebeu não provêm de nenhum crítico literário de prestígio, mas das ditaduras militares que o elogiaram proibindo-o”, celebra Galeano. Ele foi denunciado como um instrumento de corrupção da juventude.

Leia o livro. Você não será mais o mesmo. Diga Galeano, por que: “Escrevi As Veias Abertas para difundir ideias alheias e experiências próprias que talvez ajudem um pouquinho, com sua medida realista, a resolver as questões que nos perseguem desde sempre: A América Latina é uma região do mundo condenada à humilhação e à pobreza? Condenada por quem? Culpa de Deus? Culpa da natureza? Do clima modorrento? Das raças inferiores? A religião e os costumes? Não será a desgraça um produto da história, feita por homens, e que, portanto, pelos homens pode ser desfeita?”. Ou seja, “este livro é uma busca de chaves da história passada, que contribui para explicar o tempo presente, a partir da base de que a primeira condição para modificar a realidade consiste em conhecê-la”.

Ao presentear Obama com “As Veias Abertas”, Chávez contribuiu para isso. Se Obama não ler o livro, pelo menos mais alguns conterrâneos latino-americanos passarão a lê-lo. O que não deixa de ser um belo presente…

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