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“UM MAR DE SANGUE FOI O RESULTADO”

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Texto da jornalista Lena Ohm Tradução de Clovis Horst Lindner
Na infância em Essen, Harold Lewin presencia a ascensão do Nacional-socialismo e do antissemitismo. Após a “Noite dos Cristais”, ele foge com a família para a Holanda e passa a integrar a resistência – até ser preso pelos nazistas e deportado para o campo de concentração de Buchenwald. Esta é a sua história.
Seu coração chega a doer dos batimentos contra o peito. Dói mais a cada passo. Cada lufada angustiada de ar queima o peito e as fisgadas laterais são quase insuportáveis. Mesmo assim, Harold Lewin continua correndo. Segue sempre em frente. Dobra à direita, dobra à esquerda, atravessa uma pequena ponte. Nada mais que continuar a correr. Seguir em frente pelos becos estreitos do bairro das putas de Amsterdã. Atrás de si, ouve os ferozes latidos dos cães pastores, que perseguem seus calcanhares. Os latidos dos cães e os passos rápidos dos homens são as únicas coisas que Lewin ouve. Abafa todos os outros ruídos– concentra-se t…

Haverá um novo 1968?

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Apenas meio século nos separa do ano mais explosivo da história recente. Promovido por jovens estudantes em sua maioria, 1968 foi um ano atípico, que desencadeou uma explosão em escala global. Muitos dos temas que ainda hoje causam tanta polêmica foram para a rua naquele ano, em festivais, encontros, canções, gritos de guerra e protestos, muitos deles sangrentos. A juventude de 1968 protestou contra a guerra do Vietnã e a guerra fria, o imperialismo norte-americano, a desigualdade e injustiça promovidas pelo capitalismo, a opressão das ditaduras comunistas (Leste Europeu) e militares (América Latina) e em defesa de uma democracia mais participativa. Os protestos clamavam contra o autoritarismo, a bomba atômica e as desigualdades sociais. Gritava a favor dos direitos humanos, das liberdades e dos direitos das minorias. Nem a igreja escapou da onda de choque, arejando a teologia, a liturgia, a estrutura, abrindo espaço para as comunidades de base, a celebração abrilhantada por bandas e…

Redomas ou ferramental?

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A dicotomia entre o que se deve ensinar na escola ou aprender em casa não é fruto de uma avaliação séria sobre como funciona a educação. Nada garante que o essencial ensinado por professores em sala de aula ou pela família em casa seja também seguido na vida das novas gerações. Aprende-se o bem em casa e o mal na rua, o bem na rua e o mal em casa. Todo o resto é idealização de um modelo familiar e escolar que não existe. Além disso, não são somente esses dois ambientes que formam o caráter dos nossos filhos. Se você acredita que só os pais e os professores influenciam seu filho, você não conhece o poder dos amigos, da rua, das mídias sociais. Há muito ruído na educação. Os sons que vêm de fora são muito mais poderosos do que o filtro que você tenta colocar para proteger seu filho. A educação não é como um banco, onde se deposita dinheiro e saca dinheiro quando precisa. Na educação você deposita o bem e colhe o mal ou vice-versa. Cada um e cada uma faz bom ou mau uso daquilo que lhe é…

Marie Curie e Judith Butler - Incríveis Semelhanças

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Muitos não entendem que, quando falamos de justiça de gênero, estamos buscando valorizar a mulher. Neste mês de novembro, em que são comemorados os 150 anos do nascimento de Marie Curie, nada mais justo do que voltar a este tema. Mesmo porque, como primeiro destaque mundial da mulher no machista segmento da ciência humana, Marie Curie passou por experiências muito parecidas com as que Judith Buthler teve que enfrentar no Brasil cem anos depois (imagina, neste quesito estamos um século atrasados, que tristeza!). Vamos primeiro saber quem foi Marie Curie (1867-1934). Ela foi uma verdadeira heroína feminina num mundo majoritariamente dominado pelos homens. Ela foi a primeira doutora em Ciências Naturais, a primeira professora mulher em Sorbonne, a primeira cientista mulher a ganhar o Nobel de Física, e também a primeira pessoa humana a ganhar um segundo Nobel em Química, bem como a primeira integrante mulher da “Académie de Medicine” parisiense. Foi a primeira mulher a candidatar-se à “…

Bota ele no prego, professor!

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Quinhentos anos depois, é fácil. Deve beirar aí o milhão de páginas o que já foi escrito sobre aquelas 95 teses. Mas eu quero ir por outro caminho. Quero imaginar o estado do professor Martin Luther naquele fatídico dia 31 de outubro, há quinhentos anos. Na noite anterior, ele nem deve ter pregado olho. Se bem que, nas anteriores, também dormiu mal. Aquele Tetzel estava entalado na sua garganta. O Santo Padre, em Roma, não devia estar sabendo disso. Muito menos, dar o seu aval a essa barbaridade! Alguém precisava contar ao Papa o que esse safardanas andava fazendo em nome da Igreja! Um babaca, isso é o que ele era! Como é que pode negociar desse jeito com a fé simples do povo? A Igreja não podia estar por trás disso! E aquele discurso que ele andava fazendo soava como um slogan de propaganda enganosa: "Quando a sua moedinha tilintar na caixinha, a alma do seu pai, da sua mãe, do seu marido salta do purgatório para o céu! Não tem intermediários, é negócio direto! Só depende de vo…

Lutero e Marx

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Você deve pensar que enlouqueci de vez. Como um pastor pode fazer uma comparação entre Martim Lutero e Karl Marx? Mesmo espantado, recolha o seu espanto e acompanhe o meu raciocínio. O texto é longo, eu sei, mas “ouse ler”, como diz o meu amigo Renato. Bem, vamos aos detalhes. Não penso nos escritos, nas frases bombásticas ou no sucesso do professor de Wittenberg em sua terra, onde tinha a proteção de muitos príncipes e, mesmo tendo sido excomungado, levava uma vida relativamente normal, se é que se pode dizer isso da experiência alucinante que foi a existência de Lutero. Penso no que pensavam seus inimigos. Para isso, baseio-me na jovem filósofa italiana Marta Quartale, que está trabalhando em sua tese de doutorado em filosofia na universidade de Berlim. Em Roma, o ex-monge e professor de Wittenberg era o próprio demônio. Naqueles tempos em território italiano, graças ao renascimento da Inquisição no verão de 1542, qualquer simpatia à Reforma sumiu completamente do mapa em 70 anos. …

PIP, PIP, PIP, PIP...

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Era o que se ouvia pelas antenas do rádio amador em todo o mundo desde o dia 4 de outubro de 1957. O ruído intermitente vinha de uns 200 quilômetros de altura. Era o sinal emitido pelo satélite “Sputnik 1”, que se movia rápido em órbita da Terra. Enquanto os soviéticos festejavam seu feito, ao lançar o primeiro objeto feito pelo homem em órbita do planeta, no Ocidente se desconfiava daquilo. Quem pode lançar uma lua artificial em torno do planeta, também pode colocar foguetes intercontinentais com ogivas nucleares em qualquer lugar do mundo. O pip-pip da pequena esfera metálica em órbita podia ser captado por três semanas em todas as antenas do mundo. Depois, silêncio. As baterias da Sputnik tinham acabado. Ficou volteando o planeta por três meses, dando uma volta à Terra a cada 96 minutos e carbonizou no dia 4 de janeiro de 1958, ao reingressar na atmosfera terrestre. Com o Sputnik iniciou a Era Espacial e, simultaneamente, as superpotências da Guerra Fria, EUA e URSS, iniciaram a c…