Deus afundaria um navio?


No dia 15 de abril, há 100 anos, o Titanic batia num iceberg e afundava. É o épico dos épicos dos desastres marítimos de todos os tempos. Um século depois, ainda daria para construir diversos outros Titanics, só com o dinheiro que esta história continua rendendo. Acho até que o próprio James Cameron poderia construir um só com o dinheiro que ganhou com o filme com Di Caprio.

Ao lado de todos os filmes, matérias em jornais e revistas, reportagens na internet e documentários do Discovery e do NatGeo, da BBC de Londres, do Times, de Veja, Istoé e Estadão, de milhões e milhões de palavras já ditas e escritas, com ou sem razão, especulativas ou em busca sincera pela verdade, há um fato que eu ainda não vi ninguém relembrar.

Desde que este navio afundou, se fala de uma terrível maldição. Esta maldição foi tão usada e abusada em pregações, evangelizações e o mais variado kitsch pentecostal ao longo desses 100 anos, que bate outro recorde. A maldição evocada é veio por conta da afirmação do fabricante do navio, que teria dito que o Titanic é tão seguro que nem mesmo Deus o afundaria. “Por isso, ele afundou na sua viagem inaugural! Deus afundou o Titanic por conta dessa blasfêmia! De deus não se zomba!”, pregaram milhares de convictos missionários.

Isso foi dito milhões de vezes ao longo deste século, com a certeza de quem está dando um veredicto do próprio Criador. Até eu já ouvi isso, desde os meus tempos de guri, dito por algum evangelista dentro de alguma igreja luterana, por onde andei...

Sinceramente, Deus não seria tão mesquinho. Se isso fosse assim, declarar-se ateu seria uma temeridade absoluta. E o número de ateus declarados e vivos encheria muitos Titanics. Muitos deles vivem muito bem, e até são grandes personalidades da atualidade ou da história.

Se tem uma coisa que Deus não é, definitivamente, é alguém que aperta o dedão sobre uma formiga só porque ela está levando o seu bolo. Não foi Deus que afundou o Titanic. Foi o excesso de confiança da tecnologia de ponta da época que afundou o navio. Uma sucessão escandalosa de erros levou a pique a mais impressionante embarcação jamais construída até então.

Aliás, acho que Deus nem mesmo expulsou o ser humano do paraíso. Também foi o excesso de confiança que levou Adão e Eva a cometer uma inacreditável sucessão de erros que detonaram o Éden. Do mesmo jeito que ainda hoje estamos fazendo...

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