O ócio e o negócio



Interessante a relação entre o ócio e o negócio. O ócio é lazer, descanso, passeio, liberdade das atividades que garantem o sustento. Já o trabalho é o não-ócio, o negócio, ou seja, negar o ócio. A negação do ócio é o motor da economia, a produtividade. O ócio é uma conquista para quem está ocupado com o negócio. De tempos em tempos, ele tem direito ao ócio para compensar o tempo que investiu no negócio. Isto é até bíblico e é um dos dez mandamentos (“Santificarás o Dia de Descanso”).  

Para Platão, o ócio era o princípio da Filosofia, em conexão com a verdade e a liberdade, porque só pode dedicar-se a filosofar quem tem tempo para isso. Aristóteles definiu a relação entre ócio e negócio assim: “Somos ativos a fim de ter ócio”, mostrando que o ócio é um fim em si mesmo.

Na Modernidade isso foi renegado, porque o conhecimento já não é produzido no ócio, mas no processo produtivo. O conhecimento não é mais contemplativo, mas quer dominar a natureza, vencê-la, explorá-la, adaptá-la às necessidades da humanidade, que são cada vez mais vorazes.

Hoje, o negócio ocupou todos os espaços e esqueceu o ócio, segundo o filósofo Gabriel Amengual. Vivemos num tempo louco, em que a indústria do turismo transformou o próprio ócio em negócio, o que é um estranho paradoxo. A humanidade conseguiu o impossível, ao industrializar o ócio.

Comentários

  1. Lendo o trecho "(...)porque o conhecimento já não é produzido no ócio" me pergunto - sendo o conhecimento não produzido pelo ócio e sim pelo negócio, será que esse conhecimento que é atualmente produzido é pior que o conhecimento que seria produzido pelo ócio?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Claro que não, Marcelo. O conhecimento que é fruto da pesquisa e, portanto, do "negócio", nos trouxe um avanço sem precedentes na história. Não teríamos chegado onde estamos hoje se continuássemos pensando como Platão. Entretanto, como todo "negócio" tem um custo, vamos arrazando os recursos naturais e nos tornando, digamos, mais utilitaristas (tudo tem que ter um resultado!) e menos contemplativos... Perdemos a capacidade de "ouvir estrelas", como diria Bilac.

      Excluir
  2. ao ler o texto me lembrei de um negócio que esqueci de fechar por estar no ócio...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Niguem quer sa-fucking-berrrrrr.
      com os melhores cumprimentos,
      HIURI

      Excluir
    2. Desculpa, estou chateado com a vida.

      Excluir
  3. Na verdade, todo o negócio no fim gera um ócio e todo o ócio leva mais tarde a negar o ócio ou seja, executar o negócio. Isso porque, nossos sentidos nos cansam e precisamos descansar de uma atividade ou de outra. Cansamos até mesmo de não fazer nada, aí precisamos de uma atividade mais física ou mais mental para podermos descansar aquela que até então estava em atividade.

    ResponderExcluir
  4. Sem o ócio, entendido como o tempo necessário para refletir sobre si e sobre o mundo, nos afastamos do que é realmente necessário para uma vida em harmonia com a natureza e todos os seres que ali habitam, inclusive o humano. O que o consumismo, a alienação do trabalho e a busca do "progresso" incessante (traduzido em novos produtos e falsas necessidades) mascaram é a roda viva de uma existência sem sentido. Ou, na melhor das hipóteses, escravizada por objetivos alheios aos nossos. É preciso ter o direito de voltar-se para outras dimensões humanas, aprofundar-se nelas, extrair delas as potencialidades de felicidade, para que a vida valha a pena.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Excelente! Também compartilho dessa perceção.

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Origem do termo “América Latina”

“UM MAR DE SANGUE FOI O RESULTADO”