A fome de Mao de 1958 a 1962



Uma história ainda guardada a sete chaves pelo regime chinês é a da grande fome, que matou milhões de compatriotas nos anos 50 do século passado, no início do regime de Mao, está vindo à tona lentamente, apesar da censura.  

Segundo um livro lançado por Yang Jisheng, filho de uma das vítimas de um erro grave da política maoísta, a fome matou mais de 30 milhões de chineses no final daquela década. As pessoas desmoronavam de fome à beira dos caminhos e morriam em suas camas, em casa.  A catástrofe da fome que se abateu sobre o país é um tema tabu até hoje.

O pai de Yang Jisheng morreu de fome em 1958. Como jornalista da agência estatal chinesa Xinhua, ele teve acesso a arquivos proibidos, sob a alegação de pesquisar para artigos oficiais, e juntou dados estarrecedores, que se transformaram num vigoroso livro, ao qual deu o título de “Lápide”. A publicação do livro, proibido na China, somente foi possível em Hong Kong em 2008 e, de lá, foi recentemente traduzido para o alemão.

A catástrofe alimentar instalou-se na China poucos anos depois que a República Popular foi instalada na China, no ano de 1949. Para o autor, as circunstâncias políticas criadas pelo novo regime foram as principais culpadas pela fome. No caminho para o socialismo, Mao Tse-tung criava constantemente novas campanhas, como o “Grande Salto para Frente”, de 1958, no qual todas as terras se tornaram coletivas, comunidades e vilas rurais foram aglomeradas em comunas populares e tudo o que lembrava a sociedade capitalista foi radicalmente extinto.

Essas comunas eram obrigadas a entregar parte das colheitas ao Estado, para com isso providenciar alimentação para as cidades. Mas o regime tirava demais de muitos dos produtores, assim que não sobrava o suficiente para as famílias dos agricultores. Ao mesmo tempo, Mao queria desenvolver a produção industrial chinesa. Para isso, colocou os agricultores na produção de aço, retirando-os da lavoura. O resultado prático foi uma crescente falta de alimentos, que causou a catástrofe da fome.

“Comia-se socas de milho, hortaliças silvestres, cocô de passarinho, camundongos e ratos, algodão... as pessoas enfiavam qualquer coisa na boca para forrar o estômago (...) Em anos de colheita normal, sem guerra e sem pestes, milhões de pessoas morriam de fome”, relata o texto de “Lápide”.

Entretanto, em meio à aquecida campanha publicitária do regime ninguém ousava externar qualquer crítica. “A perseguição fazia parte do sistema”, explica Jisheng no livro. Simplesmente se aceitava o extermínio causado pela fome porque o medo e a opressão fechava a boca das pessoas. Em meio a tanta carestia, teriam ocorrido até casos de canibalismo.

Ainda hoje essa catástrofe continua sendo abafada pelo silêncio na China. O próprio Jisheng somente começou a tomar conhecimento do tema nos anos 1980. E ele queria saber mais, o que conseguiu por conta do seu posto privilegiado de jornalista oficial. “Eu dizia que vinha pesquisar sobre a produção de arroz”, conta o autor, única forma de colocar as mãos em material censurado e copiar dados e informações, até com relatos de testemunhas oculares, de vítimas e de funcionários do regime.

A pesquisa de Yang durou uma década. Depois de sua aposentadoria, em 2001, ele começou a escrever o livro, onde expõe todo o sofrimento causado pela penúria que os poderosos tanto gostariam de poder apagar da história da China moderna, a superpotência que se ergueu sobre a morte de 30 milhões de cidadãos pela fome. O livro de Yang não edifica somente um monumento aos mortos, mas expõe as mazelas do totalitarismo chinês.

“Lápide”, como era de se esperar, é um livro proibido na China. Mas o autor não tem problemas com as autoridades nem após sua publicação em chinês, em Hong Kong. Afinal, o livro trata somente de fatos históricos e não critica o atual governo chinês. Ele continua na atividade como jornalista, aos 72 anos, como redator de um periódico.

SERVIÇO: Por enquanto, o livro pode ser lido no original ou em alemão, sob o título de “Grabstein – Die grosse chinesische Hungerkatastrophe 1958-1962”, com tradução de Hanns Peter Hoffmann, pela editora S. Fischer Verlag, de Frankfurt. O livro tem 792 páginas e custa 28 euros.

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