Quinze anos após o genocídio de Ruanda


Um dos filmes mais impressionantes que já vi, reflete a mais crua realidade de que é capaz a insanidade humana. Em pouco mais de 100 dias, os hutus “abateram” (esta é a palavra mais adequada), a golpes de facão, um milhão de tutsis em Ruanda, na África. No mais espetacular sangue frio de que se tem notícia, milhares de vizinhos entraram na casa ao lado e esquartejaram a família inteira, do bebê ao avô. Não havia para onde fugir. As hordas de hutus “enfacãozados” golpeavam tudo que se movia. O nome do filme: Hotel Ruanda. O ano do fatídico genocídio: 1994.
Quinze anos se passaram. Tutsis e hutus são vizinhos novamente, nas ainda profundamente traumatizadas vilas do interior de Ruanda. Fala-se em pacificação, mas a desconfiança mútua ainda é muito grande entre tutsis e hutus. Muitos dos assassinos foram libertados das prisões abarrotadas; mais de 60 mil deles nos últimos anos. Até mesmo os protagonistas de um dos maiores genocídios da humanidade continuam soltos; alguns gozando de boa vida em países da Europa, na Alemanha inclusive.
A campanha de reconciliação, nos posters, dá o recado: “Ruanda, somos você e eu”. A justiça ruandesa concentra seus esforços na reconciliação. Há tantos assassinos (mais do que mortos, porque muitos massacraram em grupo), que seria impossível prender todos nas cadeias já superlotadas. Uma imensa horda jamais foi presa. Quando já havia 200 mil presos, a maioria ainda estava à solta.
Com a idéia de reconciliar a nação, a justiça criou, nas aldeias, os júris gacaca. “Gacaca” significa “campo de relva”. Tradicionalmente, esses júris se reuniam ao ar livre, em áreas gramadas, para resolver pequenas causas. Hoje, os gacacas estão julgando o genocídio. Várias vezes por semana reúnem-se em torno de 12 mil júris gacaca em Ruanda, no maior acontecimento jurídico jamais visto no mundo. Seu objetivo não é prender e castigar. O objetivo é confrontar os milhares de assassinos com seus crimes, arrancar deles uma confissão pública, o paradeiro dos restos mortais das vítimas e um pedido de perdão diante da vila reunida. Somente depois deste pedido é que são declarados livres.
A justiça ruandesa dividiu os crimes em três categorias. Na categoria três estão aqueles que mataram e tomaram posse das propriedades dos tutsis assassinados. Na categoria dois estão aqueles que assassinaram tutsis em obediência a ordens superiores. Na categoria um estão os mandantes, que planejaram e ordenaram o genocídio. Os gacacas tratam dos delitos da categoria três, julgando mais de 800 mil casos, devendo terminar seu trabalho ainda em 2009.
Muitos dos criminosos da categoria um continuam à solta. Para os casos mais graves o responsável é o tribunal de Arusha, na Tanzânia, que julgou somente 30 genocidas em dez anos (a lista dos casos mais graves tem 300 nomes). Seu mandato também se encerra no final deste ano, embora não tenha julgado boa parte dos casos.
A justiça de Ruanda quer terminar os processos, porque nenhum dos comandantes deve escapar ileso. Seria uma atitude fatal para o processo de paz e para o sucesso do processo de reconciliação. Enquanto os mandantes não estiverem atrás das grades, milhares de hutus hoje no exterior se sentem fortes para retomar o genocídio e atacar o governo tutsi no poder em Ruanda.
Entretanto, o maior drama não é a possibilidade de repetição em Ruanda. Aos trancos e barrancos, Ruanda nos dá um belo exemplo de reconciliação. Aliás, depois da África do Sul, com Nelson Mandela reconciliando a nação na qual passou quatro décadas preso por causa do apartheid, o mundo tem aprendido diversas lições acachapantes da África.
Mas o continente esquecido tem diversas situações em que genocídios continuam ocorrendo, quinze anos depois desta história que colocou a humanidade em choque. O número de um milhão já é uma realidade no Sudão, por exemplo. Enquanto isso, o ocidente, rico apesar da recessão, opulento apesar da crise, arrogante apesar da queda do segundo muro da vergonha (o de Wall Street, desta vez!!!!), continua a ignorar solenemente o que acontece na África.

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