A crise humanitária de proporções planetárias

O desespero leva as pessoas a toparem qualquer coisa. Quando a única perspectiva é um último fiapo de vida livre, lançam-se no abismo de uma possibilidade remota. Qualquer possibilidade. Sem pátria, sem lar, sem comida, sem roupa, sem eira nem beira... e você se joga nos primeiros braços que encontra abertos. E muitas vezes esses mesmos braços são mais traiçoeiros do que armadilha de caça na floresta. Quando se fecham, aprisionam, exploram, ferem mais ainda. A fome e o frio, a noite ao relento, ferem. Mas uma promessa que vira pesadelo, desmonta a própria alma. Torna-se ferida que jamais cicatriza. A promessa falsa que estimula esperança autêntica é pior que ter a escravidão como destino.
Esta é a terrível sinuca de bico em que se metem diariamente milhares de refugiados em todo mundo. E peço desculpas por descrever isto tão superficialmente, confortavelmente sentado aqui, diante do meu computador, numa sala quentinha e seca, com cheiro de café fresquinho vindo da cafeteira fumegante.
Apenas alguns recortes dessa desesperadora crise humanitária:
Os africanos que se atiram no Mediterrâneo, fugindo de não-pátrias atropeladas pelo Estado Islâmico... fugindo da fome e do caos social total, se atiram desesperados ao mar em embarcações precárias. Cerca de três Tïtanics desses refugiados já naufragaram e morreram ali. Esses mortos, porém, tiveram melhor sorte do que os que escaparam com "vida" da viagem do desespero. Ter que afirmar isso, dói. Mas é dramaticamente real. Pior que a morte no mar é a rejeição sistemática. Ninguém os quer. Ninguém se compadece, nem mesmo se importa com o destino de quem não tem mais pátria, nem nada.
Também é a experiência que marcou um grupo de 46 solicitantes de asilo vietnamitas detidos em alto-mar durante um mês pelas autoridades australianas, antes de devolvê-los a seu país de origem. Este grupo foi interceptado em 20 de março de 2015 e detido até 18 de abril e submetido a interrogatórios individuais em alto-mar e investigado. Nenhum foi reconhecido como "refugiado" pelas duríssimas leis de imigração da Austrália, um país feito de imigrantes, que transformou os nativos aborígenes em párias.
Este também é o mundo do absurdo absoluto que marca a descoberta estarrecedora de centenas (talvez milhares) de corpos enterrados em valas comuns nas montanhas, próximos a campos de refugiados implantados pelo tráfico humano na Tailândia. Com a repressão que se seguiu à terrível descoberta, os traficantes abandonaram as embarcações no mar e deixaram centenas de migrantes à deriva, o que provocou o caos na região. Malásia, Indonésia e Tailândia se recusaram a receber os migrantes e acabaram por ceder à pressão internacional e passaram a oferecer abrigo temporário.
A ONU calcula que 2.000 pessoas permanecem à deriva no mar, em um momento crítico, a poucas semanas do início da temporada de chuvas de monção. Nas últimas duas semanas, mais de 3.500 pessoas chegaram às costas da Indonésia, Tailândia e Malásia. Os migrantes são bengaleses que fogem da miséria em seu país e integrantes da comunidade muçulmana rohingya, marginalizada em Mianmar e sem direito à cidadania no país. E, o pior: gente absurdamente sem escrúpulos fazendo negócios com essa massa humana desesperada.
A lista deve incluir também os haitianos que migram para o Brasil, entrando pelo Acre em condições desumanas e jogados daqui para lá e de lá para aqui como pelanca no balcão do açougue da humanidade. Eternos esmoleiros, pressionados pelo desemprego alguns deles não veem saída a não ser retornar ao destroçado Haiti. Onde quer que aportem, os rostos se viram e os olhares se desviam. O mundo vira solenemente as costas ao Haiti desde 2010, ano em que o terremoto destrocou a economia haitiana. É o mesmo mundo que fez um Plano Marshall para recuperar a Alemanha destroçada pela segunda guerra mundial, mas não é capaz de devolver o Haiti a condições mínimas que permitam a esperança e a reconstrução.
A humanidade é sórdida.

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