Solidariedade seletiva?

Algumas notas do Twitter, nesta terça-feira pela manhã, chamaram a minha atenção. Eles sugerem que a solidariedade aos refugiados deve ser seletiva, ou seja, somente alguns países e pessoas estão devidamente preparados para receber e atender essas pessoas.
Para contextualizar minha argumentação, primeiro um histórico dos posts do pastor Ricardo Gondim, da Assembleia de Deus Bethesda, que vem dizendo com profundidade diaconal e teológica que a situação dos refugiados é nosso atestado de desumanidade e que é preciso fazer mais do que lamentar. É preciso agir.
Gondim colocou a sua Igreja à disposição para receber refugiados. "Vocês são bem-vindos no Brasil", disse, abrindo as portas. Num post de hoje pela manhã, acompanhado de uma foto de uma família muçulmana, ele foi categórico: "Lamento informar, evangélico fundamentalista: considero essa família refugiada ao mesmo tempo brasileira e nossa irmã".
Mas a opinião dos fundamentalistas religiosos sobre pessoas de religiões que não a sua própria já é conhecida e nem me altera mais. O que me incomodou foi a reação de um tuiteiro canadense à solidariedade de Gondim e de sua igreja. Segundo ele, Gondim não tinha condições para receber refugiados e ajudá-los porque o Brasil está quebrado.
Mas não é só ele que pensa assim. Alguns posts da grande imprensa de hoje vão na mesma linha. O G1, site da Globo, insiste em algumas manchetes claramente seletivas acerca da solidariedade alheia. A primeira delas é categórica e foi repetida desde as sete da matina: "Maduro ordena que Venezuela receba 20 mil refugiados sírios". Como assim? A Venezuela não pode ser solidária com os refugiados sírios? Bem, dirão vocês, quando vem de um "ditador", é uma ordem indevida sobre um pobre país refém de suas decisões tresloucadas. Por que a atitude de Maduro não pode ser percebida como simples solidariedade? O que há de mal em Maduro oferecer abrigo para 20 mil refugiados?
Em contrapartida, o G1 diz que "Ilhas gregas têm 30 mil refugiados; apenas Lesbos recebeu 20 mil". Já, com bem mais empolgação, anuncia que "Alemanha pode receber 500 mil refugiados por ano a médio prazo".
A mensagem está clara: A Alemanha tem condições; é rica; pode. A Venezuela está na miséria e não tem condições. Não pode, portanto. O Brasil está quebrado e também não deveria.
Mal sabe esta gente de coração pequeno que a solidariedade tem, via de regra, se manifestado de maneira mais acentuada justamente entre os pobres. Ao contrário do que eles imaginam, é mais fácil quem tem um pão dar a metade a quem não tem do que aquele de armário cheio retirar uma migalha para dividir com o necessitado. É o que temos visto por aí. A solidariedade está em casa entre os que nada têm e nos é ensinada muito mais pelas crianças.

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

O ócio e o negócio

O boato do filme Corpus Christi

Origem do termo “América Latina”