A última pele da cebola

O escritor alemão Günter Grass, Prêmio Nobel de Literatura com sua magnífica obra "Die Blechtrommel" (O Tambor), morreu hoje de manhã, aos 87 anos de idade.
O polêmico gênio da literatura alemã contemporânea era um homem de corajosa ousadia. Em todas as suas obras ele realizou uma análise monumental da tragédia nazista na segunda guerra mundial, tornando-se seu mais pontiagudo crítico. Era um apaixonado critico dos rumos da sociedade alemã.
Com sua obra "Beim Häuten der Zwiebel" (título de difícil tradução para o português, que foi publicado por aqui como "Nas Peles da Cebola"), entretanto, Grass foi vítima da mesma navalha que usou por toda a vida, sendo impiedosamente criticado e largamente incompreendido.
O áspero crítico do nazismo confessa na obra que foi integrante da Waffen SS e, na adolescência, nutria inocente admiração pelo "Führer". Despelando a cebola da sua vida camada por camada, Grass não se intimidou e escancarou sua biografia, expondo com isso as tremendas incoerências de toda alma humana, como exemplo de si próprio. Com isso, toda a Alemanha, da imprensa à igreja, caíram de pau em cima de sua bem-sucedida biografia literária.
A obra e a vida de Günter Grass, entretanto, permanece sendo inspiração constante para despelarmos as camadas da cebola da humanidade com coragem e muito choro... Porque, bem sabemos, que mexer com a intimidade da cebola da nossa vida provoca lágrimas, muitas lágrimas. Com sua morte, a humanidade inteira perde um dos raros seres humanos até ontem vivos, ainda capazes de enfrentar uma cebola sem máscaras ou pudores. De Grass, vei-se assim a última camada da cebola. Mas a nossa continua por ser enfrentada...

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