Justiçamento é justiça?

Esta é uma pintura obviamente mórbida. É do pintor holandês Pieter Brueghel (1525-1569), com o título "O Triunfo da Morte". Num mar de caveiras espalhando o terror da morte, chama a atenção no horizonte uma floresta de forças e instrumentos de execução, que fazem menção a um tempo na história da Europa em que a pena de morte era um recurso fácil da justiça. No século 16, o aumento da criminalidade levou ao crescente endurecimento das leis, onde a tortura era mais corriqueira do que em qualquer outro período da história antes ou depois desse tempo e as execuções alcançaram números nunca registrados.
Um viajante que chegasse, por volta de 1600, a qualquer das grandes cidades europeias, antes de chegar aos portões da cidade tinha que passar por um absurdo espetáculo de horror. Cadáveres de malfeitores e ladrões em putrefação estavam pendurados em forcas ao longo do caminho. O objetivo desse teatro macabro era intimidar potenciais malfeitores e passar a impressão de que uma ordem rígida e inquebrantável reinava naquele lugar. (Fonte: Wolfgang Behringer, in Kulturgeschichte des Klimas, p. 154).
Fique como um registro do absurdo em que a humanidade já se meteu e, volta e meia, volta a se meter. Especialmente, fique como alerta para os absurdos clamores que circulam pela nossa sociedade em pleno século 21, que levam grupos insanos a praticar justiçamento, linchamentos, apedrejamentos e outros atos que consideram "justiça". Justiçamento não é justiça. É crime em nome do combate ao crime.
Que permaneça o alerta de Gandhi: "Olho por olho, e o mundo acabará cego!". Por aqui, em muitos casos, a cegueira já nos atingiu. Passar a furar os olhos é apenas uma questão de tempo...

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