Xenofobia: Hospitalidade ameaçada


Por Clovis Horst Lindner

ARTIGO publicado no Jornal de Santa Catarina em 6 de novembro, sobre uma carta contra “baianos” em Brusque, desnuda entre nós um dos mais persistentes preconceitos da humanidade: a xenofobia. Ele continua firme e forte em pleno século 21, apesar de todo o discurso contra a discriminação e a exclusão. Está sólido como uma rocha na Europa, que se sente invadida por estrangeiros em busca de vida melhor, e tem diversos “monumentos” espalhados por aí, como as cercas que dividem Israel e Palestina, EUA e México e a Ilha de Chipre.
HOSPITALIDADE também nunca foi um sentimento de valor na região mais desenvolvida do Brasil (Sul e Sudeste). A discriminação contra os negros é histórica. Depois vem o também histórico desprezo por nordestinos em São Paulo e, mais recentemente, por bolivianos. A rejeição é bem comum também aqui entre nós, onde pessoas de fora têm sérias dificuldades de se “enturmar”.

DESCONFIANÇA define bem o sentimento contra quem não conhecemos. Também é o principal motivo da famosa Carta de Brusque, que acusa os “baianos” de tirarem o sossego do outrora traquilo “berço da fiação catarinense”. A carta foi distribuída no comércio e circula nas redes sociais, com a ameaça de limpar a cidade de pessoas indesejadas. O problema é que este panfleto apenas coloca no papel o que se pensa em muitos lugares.
ESCANCARA-SE na carta aquilo que sempre ficou meio oculto nas rodas de churrasco de domingo e em piadinhas contra minorias. Agora virou caso de polícia. A carta enquadra seus autores em dois artigos do Código Penal (Art. 140 sobre Injúria e Art. 147 sobre Ameaça) e na Lei 7.716/89 (crimes de preconceito).

A LEI é proteção contra injustiças e mau comportamento e somente ela deve ser usada para combater desvios, como os relacionados naquela malfadada carta como motivos para ameaçar os “baianos”. O Estado de Direito é componente fundamental de qualquer democracia. Não podemos abrir mão dele para fazer justiça com as próprias mãos, sob pena de nos tornarmos vítimas dessa justiça do olho por olho no futuro.
ENQUADRAR os autores daquela carta na lei, entretanto, também não resolve. Se eu fosse juiz, colocaria os 28 numa sala com tela de cinema e os faria assistir “Gran Torino”, seguido de um debate sobre xenofobia. O filme é uma aula de respeito ao estrangeiro que eu nunca esqueci. Também recomendo o filme e um debate sobre os muitos textos bíblicos que fomentam hospitalidade a estrangeiros para todas as nossas comunidades.

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Coluna Terra Brasilis da edição de Dezembro/2013 do jornal O Caminho.

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