O pronunciamento de Margot Kässmann



Um espelho de coerência e ética, no qual todos e todas podemos nos olhar. Ele mantém e fortalece a nossa dignidade de filhos e filhas de Deus, que só podem contar com a Graça de Deus. Nossas obras, ah, nossas obras! De nada valem, a não ser para sustentar a nossa própria vaidade. E esta é vã, medíocre, hipócrita e... ridícula. A seguir, tomei a liberdade de traduzir e publicar na íntegra o depoimento da Dra. Margot Kässmann no dia em que anunciou seu arrependimento e sua renúncia irrevogável a todos os ministérios que ocupava na Igreja da Alemanha. Que ele permaneça como um marco da integridade de que o ser humano só é capaz a partir do Evangelho:

“No último sábado à noite eu cometi um grave erro, do qual me arrependo profundamente. Entretanto, mesmo com tal arrependimento, e que tenha feito a mim mesma todas as acusações que, de modo justificado, devem ser feitas em tal situação, não posso e não quero fechar os olhos para o fato de que o ministério e a minha autoridade de bispa territorial, bem como de presidente do Conselho da Igreja, estão prejudicados. Eu não poderia mais, no futuro, apontar e opinar sobre os desafios éticos e políticos com a mesma liberdade que tinha até agora. A áspera crítica a uma afirmação numa prédica, como esta de que “nada está bem no Afeganistão”, só pode ser enfrentada quando a força pessoal de persuasão é reconhecida de maneira absoluta.

Um de meus conselheiros ontem me deu suporte para a caminhada com uma palavra de Jesus Sirach: “Permanece naquilo que te aconselha o teu coração” (37.17). E o meu coração me diz com toda a clareza: Não posso permanecer no ministério com a necessária autoridade. Muita coisa que tenho lido (na imprensa) não condiz com a dignidade deste ministério. Mas, além do ministério, também penso que isso tem a ver com respeito e consideração por mim mesma e por minha coerência, que significa muito para mim.

Dessa maneira, declaro que a partir deste momento eu renuncio a todos os meus ministérios eclesiásticos. Fui bispa de corpo e alma por mais de dez anos e usei todas as minhas forças nesta tarefa. Permaneço pastora da Igreja Territorial de Hannover. Juntei múltiplas experiências após 25 anos de minha ordenação, que apreciaria aplicar em outro posto.

Lamento decepcionar muitos que me pediram para permanecer no ministério, sim, que confiadamente me elegeram para exercer estes ministérios. Agradeço a todas as pessoas que me apoiaram e carregaram tão maravilhosamente, por todas as mensagens e flores, que fizeram muito bem à minha alma nesses dias. Ao Conselho da Igreja Evangélica na Alemanha (IEA) eu agradeço muito por ter expresso sua confiança em mim de maneira explícita ontem à noite.

Sou grata a todos os colaboradores e colaboradoras na Igreja Territorial de Hannover e na IEA, que me apoiaram de maneira profissional ou voluntária. De modo especial agradeço à minha equipe mais direta, que se manteve fiel a mim durante diversas tempestades. Agradeço a todos os amigos e amigas e a todos os bons conselheiros. Também agradeço às minhas quatro filhas por carregarem comigo esta decisão de maneira tão clara e evidente e por estarem junto comigo aqui.

Por último: Eu sei, baseada em crises anteriores: Não se pode cair mais fundo do que dentro da mão de Deus. Também hoje sou grata por esta convicção de fé.

Hannover, 24 de fevereiro de 2010

Dra. Margot Kässmann”

Comentários

  1. Antonio Carlos Ribeiro26 de fevereiro de 2010 10:16

    Clovis
    Mais uma vez: ponto para vc! Teu gesto ajuda a preservar a dignidade humana em seu extremo. O depoimento, com a gentileza da tua tradução, permite entender como alguém que vive confiado na graça pode subir aos céus e descer aos infernos, sem perder a confiança da companhia de Cristo, confirmada na palavra de Lutero: Com Cristo presente, tudo é superável (Christo autem praesente omnia superabilia [WA 1, 16]). Amplexus.
    Antonio Carlos Ribeiro

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  2. Valeu, Clovis, muito obrigado pelo envio da tradução. Tens toda razão, que exemplo dessa mulher, hem? Ah se tivéssemos esses exemplos aqui no Brasil. Mas nem erros muuuuuuuuuuitos maiores que muitas autoridades cometem, não levam a uma decisão dessas.
    Valeu mesmo.
    Abraços
    Eloy

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  3. Obrigado pelo envio, retribuo com este artigo.
    Jürgen Westerhoff é um amigo meu e redator da Nordwest Zeitung. Considero mui apropriado este artigo. Entrementes as "ondas" acalmaram e, interinamente , o Präses Nicolaus Schneider da Igreja da Renania assumiu o cargo. Anexo uma charge mui pertinente sobre o tema....

    Sds. Ernesto Schlieper


    VON JÜRGEN WESTERHOFF

    KÄßMANN-RÜCKTRITT

    Die Entscheidung war bitter, ist schwer gefallen – und war notwendig. Mit dem Rückzug aus ihren Spitzenämtern hat die Ratsvorsitzende der Evangelischen Kirche in Deutschland und hannoversche Landesbischöfin, Margot Käßmann, auch für ein Stück Erleichterung gesorgt.

    Einen Tag hat die Spitzenfrau der deutschen Protestanten zuvor erlebt, was ihr nach ihrer Alkoholfahrt am Sonnabend auch in der Zukunft immer wieder begegnet wäre: Häme, Spott, zynische Kommentare, verlogene Krokodilstränen sowie diplomatisch-spitzfindig formulierte scheinbare Solidaritätsbekundungen ohne große Tragkraft.

    Egal, zu welchem Thema sie sich geäußert hätte, ihr persönliches Fehlverhalten hätte immer wieder dazu gedient, von den eigentlichen Fragen abzulenken.

    Außerdem hat sie hören können, wie lautstark und beredt auch Schweigen sein kann. Margot Käßmann hat – nachdem sie zunächst womöglich überlegt hatte, im Amt zu bleiben – genau zugehört und die Botschaft verstanden.

    Das Ergebnis war ihr klarer Schlussstrich, mit dem sie sich selbst und ihrer Kirche eine Menge ersparte. Denn eins ist sicher: Wenn es denn Ämter gibt, an die erhöhte Anforderungen gestellt werden, gehört das kirchliche Bischofsamt ganz oben auf die entsprechende Liste – und das detaillierte Anforderungsprofil ist an mehreren Stellen der Paulusbriefe in der Bibel nachzulesen.

    Andererseits gilt natürlich gerade innerhalb der Kirche auch das Gebot der Barmherzigkeit und das Bewusstsein, dass auch Bischöfe eben tatsächlich keine Heilige sind, sondern Menschen mit Stärken, Schwächen und Fehlern.

    Die Qualität des innerkirchlichen Umgangs miteinander wird sich in Zukunft daran bewerten lassen, wie man nach dem Sturz der Bischöfin mit der Pastorin Margot Käßmann umgeht.

    Viele mögen den Verlust der protestantischen Vorzeigefrau bedauern. Gleichzeitig gewinnt die evangelische Kirche aber eine Pastorin, die mit ihren zahlreichen Gaben sehr viel Gutes bewirken kann – und nach ihrem klaren Schritt auch wieder eine glaubwürdige moralische Instanz werden kann.

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  4. Gostaria de agradecer muito o que escreveste a respeito do caso Kässemann. Aliás, teu Blog é simplesmente fantástico. Este sim, merece os parabéns! Continue cultivando o jardim.
    Um abração!
    Geraldo Schach

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  5. Já havia tomado conhecimento, ontem, desta triste ocorrência. Imagina se pegassem os tantos 'presidentes' que beberam uma cerveja por aí... Dentro do contexto, Margot mais uma vez mostra coerência com sua postura! Lamentavelmente é assim, por coisa pouca, que vamos perdendo grandes lideranças... Por aqui, as cuecas e meias se enchem das sujeiras da corrupção, e tudo fica como esta...
    Parabéns por sua iniciativa!
    Ivoni Reimer

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