Ariel Sharon: Refrescando nossa memória



Ariel Sharon como o conhecemos dos tempos de primeiro ministro (2001-2006)

Ariel Sharon está em coma permanente desde 2006. Está fora de combate desde então, no fundo de uma cama, depois de uma hemorragia cerebral, quando ainda era primeiro-ministro de Israel. São mais de sete anos em estado vegetativo, tempo suficiente para esquecer quem foi Ariel Sharon e o que representou para israelenses e palestinos.

Você não se lembra?

Não, ele não foi nenhum herói ou uma espécie de líder que mereça ser citado. Ariel Sharon é um dos principais responsáveis pelo atual endurecimento das relações entre Israel e a Palestina. Homem rude e de duro trato, Sharon não mediu esforços para complicar ao máximo a vida dos palestinos e as relações de Israel com os seus vizinhos árabes. E o fez com um raro brilho nos olhos. Morte aos palestinos era o seu desejo mais profundo.

Sharon como estrategista militar.
 
Militar com cara de militar, cabeça de militar e coração de militar, Ariel Scheinerman – seu verdadeiro nome – fez parte das mais polêmicas ações militares israelenses desde a guerra do Líbano, na década de 1980. Iniciou sua vida militar aos 14 anos, na organização paramilitar Gadna e mais tarde na Haganá, o que apenas contribuiu ainda mais para endurecer seu coração de pedra. Incorporado ao exército de Israel, Sharon tornou-se comandante e esteve à frente de vários ataques à Palestina logo nos primeiros anos da constituição do Estado de Israel em 1948. Nos anos 50 envolveu-se em diversos massacres em que morreram civis palestinos, que foram duramente criticados no ocidente.

Afastado do exército, Sharon foi um dos principais articuladores do partido Likut, de centro-direita, no início da década de 1970. Ele deixou a atividade política para comandar as forças militares israelenses durante o Yom Kippur, uma guerra de 20 dias em outubro de 1973 entre uma coalizão de estados árabes liderados por Egito e Síria contra Israel.

Depois disso, foi conselheiro militar do governo israelense e político. Como ministro da agricultura, Sharon usou de sua posição para estimular a criação de uma rede de assentamentos na Cisjordânia e Faixa de Gaza e evitar o retorno dos civis palestinos expulsos de lá, conseguindou dobrar o número de assentamentos judeus na área.

Como ministro da Defesa, Sharon passou a apoiar e atiçar os cristãos contra os muçulmanos no Líbano, com o objetivo de fazer daquele país um posto avançado de Israel. Em 1982 as tropas israelenses invadiram Beirute. Na mesma ocasião falangistas libaneses maronitas invadiram dois campos de refugiados palestinos – Sabra e Shatila – situados em área controlada pelo exército israelense. Nesse episódio, segundo a Cruz Vermelha Internacional, 452 civis palestinos foram assassinados – embora outras fontes estimem o número de vítimas em até 3.500 pessoas.

Mais de 500.000 israelenses se manifestaram contra o massacre e em1983 a comissão de inquérito oficial, dirigida pelo presidente da Corte Suprema de Israel, o juiz Yitzhak Kahan, publicou seu relatório, responsabilizando pessoalmente Ariel Sharon por não ter ordenado as medidas de segurança necessárias a impedir o previsível massacre. Assim, Sharon foi obrigado a deixar o Ministério.

Mas ele continuou no governo, até como “ministro sem pasta”, até que finalmente, em 2001, veio a ser o primeiro-ministro de Israel. No cargo, foi um dos principais causadores do acirramento da crise entre Israel e o mundo árabe. 

Sharon em estado vegetativo (desde 2006).
 
Mesmo depois de entrar em coma e subsequente estado vegetativo, ele tem provocado polêmica. Para o Hamas, o Oriente Médio ficaria melhor sem Sharon e o líder da OLP disse que Deus mantém o açougueiro vivo para que os palestinos possam vingar-se dele. Até os fundamentalistas cristãos norte-americanos, como o televangelista Pat Robertson, afirmaram que Deus está castigando Sharon por ter dividido Israel. Por isso, não consegue morrer.

Na verdade, a cada vez mais precária saúde de Sharon não é um castigo de Javé, mas um resultado direto da moderna ciência, que consegue manter vivo por tantos anos alguém que, de modo natural, já teria partido há muito. Seu julgamento não será nesta esfera, porque Deus não é mesquinho, nem justiceiro, embora até o Antigo Testamento tenha contribuído para uma visão justiceira de Deus.

A propósito, a pior das confusões que se pode fazer em meio a todo este episódio é passar a impressão de que o moderno Estado de Israel é o mesmo Israel de que fala o Antigo Testamento. O moderno Estado de Israel não é fruto da justiça vingadora de Javé. É resultado de um extremamente bem-urdido plano militar movido a fundamentalismo bíblico retrógrado norte-americano, que com essa patetada pensa poder apressar a volta de Jesus para o fim dos tempos. Que a paz de Javé nos proteja, amém!

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