O Brasil e a guerra dos fundamentalismos

Sarah Palin: A beleza americana tem alma fundamentalista

A realidade político-religiosa nos EUA sempre foi marcada pelo fundamentalismo e pelo extremismo exacerbado de direita. Fica até complicado para um brasileiro, como eu, entender a cabeça daquela gente. A base de tudo, ali, não é a política, mas o fundamentalismo religioso. Este é um complicador histórico e de difícil solução. Embora alguns segmentos mais radicais dos nossos partidos mais à direita tenham realizado um apagado movimento de jogar com argumentos religiosos numa campanha presidencial, no ano passado, nada faz sequer lembrar o que acontece neste campo escorregadio nos EUA. Não há nada parecido no ocidente.

Em poucas palavras, quem determina os movimentos decisivos no tabuleiro da política norte-americana é o fundamentalismo construído sobre os legados históricos do movimento evangelista, com destaque para Billy Graham e seus filhos, Jimmy Swaggart, Rex Humbard e muitos outros. Eles passaram a vida semeando o ideário norte-americano com tempero bíblico, arrastando multidões atrás de si. Todos eles são famosos, respeitados e ricos, alguns deles mesmo depois de escândalos sexuais e financeiros. A última palavra nas igrejas, na educação, na ética e na política interna e externa dos EUA passa pela teologia dessa gente. Aliás, é a teologia que determina a vida política por lá.

Dentro dessa cosmovisão, o que é de direita vem de Deus e o que é de esquerda vem do diabo. Muito de sua força cresceu nos anos da guerra fria em cima do terreno fértil da demonização do comunismo ateu. Tal demonização foi estendendo seus domínios cada vez mais à direita, sufocando perigosamente qualquer pensamento de esquerda e até mesmo de centro-esquerda. A tal ponto que jamais houve uma esquerda realmente significativa nos EUA. “Um partido como o PT jamais vai se criar entre nós”, me disse um pastor americano, certa vez. “Não existe esquerda nos EUA”, vaticinou. Perguntado sobre a diferença entre os democratas e os republicanos, ele foi implacável: “Eles são como a coca-cola e a pepsi-cola. A Pepsi é um pouco mais adocicada, mas ambas têm a mesma composição”.

Eles misturam religião e política como quem junta pão e carne moída para fazer um hambúrguer. Mas exaltam-se até o risco de um AVC quando falam da teologia da libertação, acusando-a de fazer exatamente aquilo que eles fazem diuturnamente sem qualquer constrangimento e com a convicção de quem está desempenhando uma missão profética determinada pelo próprio Senhor Jesus.

Tal camisa de força ideológica acabou por conduzir os EUA a um perigoso estado de pensamento único, que rechaça e persegue implacavelmente qualquer um que destoe do padrão. O resultado é uma sociedade que produz, com facilidade, radicais de visão intolerante e violenta. Movimentos como o Tea Party, cuja musa inspiradora é Sarah Palin, escancaram as portas para esse tipo de atitude política. E eles conseguem arrastar multidões atrás de si, ao ponto de desestabilizar o governo de Barak Obama, que não passa de morno-quase-frio, do ponto de vista ideológico. Entretanto, algumas das decisões e erros do seu governo levaram à loucura os movimentos conservadores, lançando desde já Sarah Palin candidata à casa branca, que tem tudo para derrotar Obama já em 2012. Ele não terá um segundo mandato, isso já são favas contadas.

Mas esse movimento é capaz de infinitamente mais do que isso. A prova concreta é o atentado no Arizona, na semana passada. E, anotem aí, irão acontecer outros nos mesmos moldes. A própria vida de Obama corre sério risco nesse contexto efervescente.

As perigosas manobras no tabuleiro do xadrez ideológico norte-americano ainda farão corar o fundamentalismo islâmico. Eles estão se nivelando perigosamente por baixo. Por isso mesmo, tudo aponta para um dramático cenário, nessa emergente segunda década do século 21. O mundo vai pegar fogo, e o incêndio será alimentado por gladiadores que são parecidos ao extremo: o fundamentalismo islâmico e o fundamentalismo de direita dos EUA. Ambos são intolerantes, perigosos, incendiários e capazes de se tornar extremamente violentos. Por isso, mesmo, ambos são terroristas. Ponto Final.

Para encerrar afirmo, com uma ponta de orgulho, que o Brasil – com sua visão política mais moderna, aberta e tolerante – pode ser um poderoso fiel da balança nessa guerra que já tomou conta do mundo. Temos a nosso favor um passado de debate teológico único, liderado pela igreja progressista latino-americana, e que tem aberto preciosas portas no campo ideológico, na luta pelos direitos humanos, pela igualdade ampla entre todas as pessoas e na conquista da cidadania. A diplomacia brasileira, se souber dar os passos no rumo certo, poderá interpor-se como mediadora entre os fundamentalismos do ocidente e do oriente com autoridade e condições reais de obter resultados, a ponto de evitar o pior.

Comentários

  1. Devemos cuidar para não analisarmos tudo por uma perspectiva maniqueísta!
    Quer dizer que todo atentado envolvendo políticos leva necessariamente a concluirmos que foi coisa dos adversários políticos?

    Por que ninguém lembra que o tal atirador trabalhou na campanha de Gabrielle Giffords!?
    Sim, o atirador Jarred Lee Loughner apoiou financeiramente a campanha dela e participou de eventos realizados pela comitê de campanha de Gabrielle, recebendo até carta de agradecimento do comitê dela pelo apoio dado (Saiba mais aqui: http://www.wnd.com/index.php?fa=PAGE.view&pageId=249381). Jarred Lee Loughner trabalhou na campanha de Gabrielle no Arizona à Câmara dos Representantes em 2007.

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  2. Antonio Carlos Ribeiro12 de janeiro de 2011 11:25

    Concordo com os argumentos, com duas ressalvas, uma ideológica e outra pictórica. A primeira, o submundo da campanha presidencial da oposição foi danoso, preconceituoso, com poder excessivo e frustrante (só conseguiu 6% a mais que as de 2002 e 2006). A segunda, sobre a foto de Sarah Palin,quem não deixa o olhar se perder nas cores cheias, mas distingue os entretons, enxerga o belo par de
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    olhos estrábicos.

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  3. Após dias de silêncio sobre as notícias de que o atentado do Arizona tem a ver com os inflamados discursos da direita, Sarah Palin publicou um vídeo de oito minutos no Facebook, defendendo-se. Disse que a imprensa lançou um "libelo de sangue" contra ela e o Tea Party. A comunidade judaica mundial ficou indignada, porque o termo evoca acusações feitas no passado aos judeus, de que estariam sacrificando crianças cristãs em rituais macabros. Em vez de buscar conciliação e paz num momento em que o país está em comoção, Palin ataca e joga gasolina no fogo.

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  4. Excelente artigo, amigo, mas sinto informar que essa imagem da Palin é montagem :P

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  5. Na verdade é uma atriz porno, que fez um filme representando a Sarah Palin... Who's Nailin' Paylin? Essa atriz chama-se Lisa Ann.

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