A solidariedade afasta os abutres


Com a marca da morte atingindo o nível de quase 700 pessoas e ainda incontáveis desaparecidas – sem levar em consideração os milhares de animais de todos os portes que morreram sob a lama e a água –, o cheiro de cadáver começa a tornar o ar insuportável na outrora bela serra do Rio de Janeiro.

Os abutres vivem da morte alheia, e esta condição lhes é natural e até necessária. Mas não são os abutres que estão aparecendo em grande quantidade naquele cenário de tragédia. Em meio à crescente horda de gente solidária e disposta a ajudar, infiltram-se os insensíveis que se aproveitam da desgraça alheia para se dar bem.

A primeira espécie desses abutres são os que se aproveitam do abandono dos lares e estabelecimentos comerciais atingidos para surrupiar objetos de valor. Aconteceu também aqui, em Blumenau. E não eram bandidos, no estrito sentido da palavra. Era gente comum, que nunca roubou, sem ficha corrida na polícia. Eles chegam como quem não quer nada, até ajudam quando solicitados, mas não se intimidam diante de uma oportunidade. “Estava ali e não era de ninguém”, se desculpam. São daqueles que encontram uma carteira na rua e que não se juntam à turma dos heróis que são capazes de devolver até uma pasta cheia de milhares de reais encontrada num táxi ou banco de praça. Talvez estejam acostumados a esse tipo de “apropriação” desde os tempos de criança, quando não perdiam a oportunidade de tirar uma nota de dez ou vinte reais da carteira dos pais para comprar guloseimas.

A segunda espécie desses abutres são os comerciantes inescrupulosos. Um galão de água mineral chegou a custar 40 reais na serra fluminense. Além de uma safadeza sem classificação, aproveitar-se dessa maneira para ganhar uns trocados a mais em cima da desgraça dos outros é crime previsto no código penal: abuso econômico. É lógico que a dificuldade em fazer chegar qualquer produto ao palco da tragédia custa bem mais do que custaria em tempos normais, mas nada justifica um preço absurdo assim num produto que, fora do ambiente de catástrofe, custa míseros seis reais. Como quem atenta contra a economia popular, o lugar de tais abutres é diante do juiz, que o deveria condenar ao menos a prestar serviços comunitários. Em casos extremos, multa e alvará caçado.

A terceira espécie de aves de carniça que revoam a zona da tragédia são os prometedores de soluções. Eles estão no poder ou pretendem ocupar um lugar de destaque entre os poderosos, são filiados a partidos e até pisam na lama para chupar as almas da população, que continua acreditando, acreditando e acreditando. As soluções mirabolantes que propõem jamais são implantadas. Passa o tempo, passam as tragédias, mas eles não passam. Estão pousados em todos os galhos de todas as cidades, nos campos, nas praças, em todos os poleiros. Eles não têm pressa. Sabem esperar o momento certo.

Mas o pior de todos os abutres que aparecem nessas horas são os que se aproveitam da infância, que é sempre a parcela da sociedade que mais sofre nas catástrofes e nas guerras. Uma semana depois da tragédia, se contam às centenas as crianças que perderam os pais. Elas estão recebendo todos os cuidados das autoridades, segundo as notícias. Mas já tem gente alertando para a chegada de eventuais abutres pedófilos, que se misturam às filas de adoção para tirar proveito da inocência e ingenuidade daqueles que já têm seus corações extremamente dilacerados pela perda dos pais.

Todos eles, entretanto, são superados em grande número pelas revoadas múltiplas de aves migratórias solidárias. É gente de todo tipo, com corações enormes, que largam tudo o que estão fazendo para ajudar, praticar a solidariedade, doar tudo o que tem, inclusive a si próprios, para auxiliar. Os abutres podem até virar notícia. Mas cada gesto concreto de solidariedade, em meio à lama ou a milhares de quilômetros de distância, mata muitos abutres de uma só tacada. A solidariedade supera a própria morte, perfuma o ar e dispersa o cheiro de cadáver. O ar no local da tragédia torna-se respirável novamente, faz os atingidos se reerguerem, enchendo-se de coragem e esperança. A solidariedade é o antídoto certo, eficiente, que acaba com os abutres.

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