Desumanidade enfiada por debaixo da porta



Esta carta anônima não é um documento histórico da época do nazismo. Ela foi produzida em pleno século 21. O seu texto é absurdamente chocante, para adjetivá-lo de maneira polida. E ela também não surgiu em algum lugar obscuro do planeta. Ela foi redigida há poucos dias no Canadá, e enfiada pela fresta da porta de um apartamento em Newcastle, próximo a Toronto. E, por fim, ela tenta esconder a autora desse preconceito monstruoso atrás do anonimato mais baixo e vil.

O desumano recado anônimo dirige-se a Karley Begley, mãe de Max, um jovem autista de 13 anos de idade. O objetivo da autora “anônima” – que se identifica inadvertidamente no próprio texto como a vizinha do apartamento de cima do de Karley e Max – é expressar sua profunda irritação com o comportamento do garoto, cujos ruídos devem chegar até seu apartamento. Mais que irritação, o texto revela um coração monstruoso e uma mente psicótica. A carta foi parar no Twitter.

“Simplesmente mude-se daqui, ou então pratique morte assistida. Seria melhor para todos. Sinceramente, uma mãe p... da cara”, é a sugestão da autora no final da sua repugnante obra de redação.

De resto, demonstrando uma desumanidade raramente expressa de modo tão sincero, ela classifica a mãe de Max de “imprudente e egoísta” e chama o rapaz de “idiota, animal e ser que não merece viver”. 

Ela continua desfilando seu festival de barbaridades: “Esta criança não é normal. Ninguém lhe dará um emprego. Nenhuma moça normal irá amá-lo ou casar-se com ele. Ninguém irá cuidar dele mais tarde. As partes não retardadas do seu corpo deveriam ser doadas para a ciência para fins de pesquisa científica. Para que mais, afinal, serve esta criança? Que direitos tem você de impô-lo a pessoas que trabalham duro? EU ODEIO gente como você, que acredita que só por ter uma criança especial merece tratamento especial! Deus!”.

E o seu “pedido”, que mais parece uma ameaça, diz: “Faça um favor a todos nós e vá embora. Vá viver num trailer no meio do mato! Ninguém quer você aqui, só que ninguém tem colhões para lhe dizer isto”.

De fato, a sociedade sabe ser cruel com Pessoas com Deficiência e absurdamente desumana com quem as acolhe, abraça, respeita e ama. Já vi muito preconceito, muita atitude movida a curiosidade, espanto e até insensibilidade. Até vi instituições confessarem que não estão preparadas para receber PD e praticar uma política deliberada de delimitar o seu espaço para pessoas “normais”. Gente que defende que o lugar dessas “criaturas” não é numa escola normal, não falta por exemplo. Mas eu jamais, nesses sete anos de cuidados com o meu neto especial, vi qualquer coisa parecida com esta.

Talvez eu seja mais um a tapar o sol com a peneira e não tenha percebido ainda... Ou nunca tenha encontrado nenhuma pessoa que tenha “colhões” de verdade para dizer o que realmente passa pelo seu coração desumano... As pessoas são cruéis! Em muitos casos, elas até pensam como esta “anônima” de Newcastle/Canadá, mas de fato são covardes demais para assumir sua psicopatia...

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