Os 30 anos do primeiro banho do Cascão


Todo mundo sabe que o Cascão detesta banho e que foge da água que nem o diabo da cruz. Mas, por incrível que pareça, Maurício de Souza já fez o Cascão tomar banho.

Obviamente, foi por uma boa causa. Este banho está completando 30 anos em 2013. E acho que, desde então, o danado do Cascão nunca mais teve qualquer contato com água! Mas o Cascão entrou na água em 1983, em Santa Catarina, para ajudar crianças durante as enchentes que desabrigaram 200 mil pessoas no Sul do Brasil.

Ah, como eu lembro daquele ano! A nossa segunda filha, a Débora, nasceu em 1982 e lembro que choveu um ano inteirinho. Até tivemos que comprar uma secadora para ter fraldas para ela. E aí, em 1983, enfrentamos meses de cheias constantes, até que a água se instalou de vez, ao longo de mais de 25 dias, nas principais cidades do Vale do Itajaí.

Privilegiados, nós morávamos em Timbó, uma das cidades que menos sofreu com toda aquela catástrofe das águas.

Fomos com o Fusca da paróquia de Timbó até Rio do Sul, repleto de mantimentos, para prestar socorro aos flagelados. Estiveram comigo naquela perigosa viagem o Carlos Hanemann e o Dr. Nereu Roepke. No trecho interditado pelas águas da BR 470 no Médio Vale, fomos pelo Warnow, por uma terrível estrada de chão. Num trecho interditado também naquela estreita pista de lama, o Dr. Nereu vestindo um surrado uniforme militar se fez passar por coronel do exército e mandou as máquinas abrirem uma passagem pelo antigo leito da estrada de ferro, por onde fomos os primeiros a passar. Na Subida, lembro de uma barreira que ameaçava cair sobre a rodovia e que passamos com o coração na boca. Logo em seguida tudo desabou atrás de nós...

Em Rio do Sul, então mergulhada ainda num deserto de lama, lama e mais lama, prestamos socorro à minha sogra, que teve a casa completamente coberta pela água. Os meus pais tiveram água até a metade da janela. Além da água, a casa deles foi invadida por diversas pilhas de tábuas da madeireira vizinha e um mundo de lodo de meio metro, que vinha do pátio de manobras de toras da serraria.É uma história para ser contada com mais detalhes...

Voltando ao primeiro e único banho do Cascão.



Há 30 anos, no dia 31 de julho de 1983, na capa da "Folhinha", encarte infantil da Folha de S. Paulo, o cartunista Mauricio de Sousa escreveu um conto que narra o primeiro contato do personagem "sujinho" com a água. O banho, tomado por vontade própria, foi por uma boa causa. Cascão entrou na água para ajudar as vítimas daquela enchente de 1983, da qual contei rapidamente minhas experiências acima.Veja a história que o Maurício escreveu para acompanhar a ilustração:



O PRIMEIRO BANHO DO CASCÃO
Tudo tem uma primeira vez.
E o Cascão sentiu que era chegado o momento.
Ele havia escapado de banhos, chuvas e respingos por toda a vida.
Mas hoje, por sua própria vontade, enfrentaria o sacrifício. Venceria o medo e entraria na água.
Engoliu seco (é lógico) enquanto se preparava psicologicamente. Lembrou-se das inúmeras vezes em que escapou das armadilhas preparadas pela Mônica, Cebolinha, até por sua mãe, que tentava pegá-lo para o primeiro banho.
Jamais conseguiram.
Foi preciso que acontecesse algo mais forte do que uma coelhada da Mônica para ele se decidir.
E hoje ele já está pronto para o primeiro banho e para uma ação mais nobre.
Devagarinho, tateando com o dedão. Depois sentindo a água, sensação desconhecida, até os tornozelos. E, em seguida, com a água até a cintura, lá vai o Cascão, com uma trouxinha de roupas e biscoitos, em direção às crianças assustadas, ilhadas pela enchente de Santa Catarina.

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