A chacina de Tlatelolco


Há 41 anos, o dia 2 de outubro é um dia de luto no México. Nesse dia, no turbulento ano de 1968, entre 300 e 500 jovens universitários perderam a vida na Plaza de Las Tres Culturas, em Tlatelolco, na capital do México. Faltavam poucos dias para a realização dos jogos olímpicos e as ruas da capital mexicana estavam lotadas de atletas e turistas, repórteres e curiosos já se preparavam para assistir à abertura dos jogos, quando no fim daquela tarde, já noite, ocorreu uma das maiores chacinas de que sem notícia no país.
Naquela praça, o movimento estudantil realizava manifestações pacíficas pedindo reformas no governo do então presidente Gustavo Dias Ordas, quando, por volta das 17 horas, um rio de sangue começou a correr em função do fogo cruzado, atingindo manifestantes, transeuntes e até idosos sentados na praça, na qual convive a história pré-colombiana, a colonização espanhola e o México moderno (por isso, praça das três culturas). Além dos mortos, mais de seis mil foram presos. Entre os manifestantes havia também professores, intelectuais, operários e donas de casa.
Depois daquele dia, durante três décadas o governo disse em sua defesa que os estudantes iniciaram o banho de sangue. Sobreviventes do massacre e pesquisadores, no entanto, rebateram essa versão, ao provar que havia agentes infiltrados, vestidos em roupas civis, que iniciaram o tiroteio indiscriminado que resultou na chacina, executada pelo Batalhão Olímpia e pelo Exército Mexicano contra a manifestação pacífica do Conselho Nacional de Greve.
No dia seguinte as mães saíram pelas ruas para buscar seus filhos, convencidas que a nação, depois do massacre, deveria reagir com armas. Mas encontraram silêncio total. Nem mesmo os mortos puderam ser fotografados, a imprensa nada noticiou e as atividades oficiais não sofreram a menor alteração da rotina. Tlatelolco era uma tragédia secreta, que só dizia respeito aos infelizes que estiveram ali naquele momento. Mas o mundo inteiro não se calaria diante da barbaridade, expondo e relatando a arbitrariedade que ocorreu.
Três séculos antes daquela chacina, no dia 13 de agosto de 1521, exatamente naquele mesmo lugar onde está a Praça das Três Culturas, Cuauhtemoc havia perdido, com os seus mortos, o palácio e o comando do império asteca, caindo no poder do conquistador espanhol Hernán Cortés. Iniciava ali o doloroso processo de colonização e o nascimento do povo mestiço que hoje habita o México. É também o que está escrito numa placa, na praça.
Hoje a Praça das Três Culturas é um sítio arqueológico e histórico imponente. Suas construções e a placa em que aparecem os nomes dos estudantes mortos e identificados do dia 2 de outubro de 1968, impressionam pela crueldade daquele massacre.

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