A difícil arte do respeito à diversidade religiosa


Estudiosos, professores e representantes de diversos países da América Latina participaram ontem à noite, em Blumenau, no auditório do Viena Park Hotel, da solenidade de abertura do I Seminário Internacional Culturas e Desenvolvimento. O encontro, que se estende até sábado, abriga também o V Seminário Catarinense de Ensino Religioso. Organizado pela FURB-Universidade Regional de Blumenau, com participação da Associação de Professores de Ensino Religioso de Santa Catarina e diversas outras entidades, discute o tema Culturas e Diversidade Religiosa na América Latina - Pesquisa e Perspectivas Pedagógicas.

A importância do debate do encontro foi cravada já na apresentação pelo Dr. Roberto Araújo, assessor de Direitos Humanos da Presidência da República, ao quantificar que a Secretaria Especial de Direitos Humanos registra, entrementes, nove matrizes religiosas, que se dividem em 181 religiões em território brasileiro.

Segundo Araújo, os problemas de desrespeito por motivos religiosos estão entre as principais queixas que chegam à Secretaria, ligadas ao tema direitos humanos. "O estado brasileiro, segundo a constituição, é laico, mas tem o dever de zelar pela total liberdade de manifestação religiosa", o que, segundo ele, não é tarefa fácil num país que tem muitos preconceitos religiosos enraizados. Segundo ele, "respeitar o direito do outro de crer no que ele quiser ou até de não ter nenhuma crença é requisito básico para que eu tenha o meu direito de crença preservado também". Esta é a base do convívio respeitoso num ambiente de diversidade religiosa.

O secretário-geral do Conselho Latino-Americano de Igrejas-CLAI, o pastor luterano brasileiro Nilton Giese, exemplificou que, mesmo entre as diferentes tradições religiosas do cristianismo, o convívio fraterno às vezes é difícil. O problema se agrava quando o objetivo é estender o respeito à religião alheia que não seja ligada ao cristianismo porque, segundo muitos, aceitar redenção fora da pessoa de Jesus Cristo derruba o alicerce do evangelho, no qual o próprio Cristo se apresenta como o único caminho, a única verdade e a única possibilidade de vida. "O que fazemos com a nossa exclusividade de salvação?", questiona Giese. Isso se torna ainda mais delicado quando se trata de integrar as religiões de matriz africana ou indígena.

O seminário se debruça sobre um tema delicado, porém de extrema relevância num mundo plural: o respeito à crença alheia como conteúdo escolar, na formação plena da cidadania, na busca da construção de uma cultura de paz na sociedade. Como repassar tal conteúdo? Que ferramentas pedagógicas facilitam o processo?

A tarefa é gigantesca. Antes de encontrar ferramentas pedagógicas, é preciso quebrar muitas resistências, derrubando o mito da exclusividade da revelação divina a determinados grupamentos religiosos. É preciso desarmar espíritos, derrotar preconceitos e pavimentar caminhos de aproximação respeitosa. É necessário fomentar um estado de espírito favorável ao desejo de aprender com as características de fé do outro. É preciso, também, semear a ideia de que a minha liberdade religiosa depende de uma sociedade que dê liberdade religiosa aos outros e, por isso, não cabe nela a discriminação, o desrespeito, a intolerância ou a galhofa.

Comentários

  1. Caro Clovis,
    Obrigado por essa indicação. Parabéns por esse posting e por muitos outros. A discussão sobre o exclusivismo é necessária, pois faz parte da descolonização da teologia cristã que desde Constantino adotou essa postura imperialista e belicosa. É necessário reler exatamente os versículos “o caminho, a verdade e a vida” e achar uma interpretação evangélica e não colonialista para eles. O caminho é o método de Jesus, revelado com maestria na história dos discípulos de Emaús com o processo de sair do desânimo, da decepção e da tristeza, para ainda de noite voltar a Jerusalém, ao palco onde os poderes da morte ainda impunham medo a todos, encorajados para dar testemunho da vitória da vida. A verdade tem muitas faces e nós apenas conseguimos apreender fragmentos dela, pois somos humanos limitados. Ainda fico impressionado com a frase de um judeu pesquisador do cristianismo, Shalom Ben Chorin: “A fé em Jesus nos separa, mas a fé de Jesus nos une!” A fé de Jesus no Reino de Deus é caminho, verdade e vida.

    Quero te parabenizar também pelo artigo sobre a Nobel da paz e a referência aos ecologistas de SC, que não conseguem desconstruir seus preconceitos em relação aos indígenas.

    Da mesma forma, dei uma olhada no site Journeys of the Messiah, muito lindo e uma proposta muito interessante. Estou repassando para os meus filhos.

    Abraços, companheiro velho! Hans Trein

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  2. Caro colega.
    Com muito prazer tomei conhecimento desse seminário. Congratulo-lhe pelo compartilhar de matérias importantes e atuais através do seu blog. Dessa forma você está qualificando ainda mais sua contribuição na área da comunicação, na qual os luteranos tem algumas dificuldades.Parabéns!
    Com saudações amigas
    P.em. Huberto Kirchheim

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