O sofrimento que produz salvação



A Sexta-feira Santa é um dia de luto para a cristandade, que rememora a morte e o sofrimento de Jesus. Embora uma minoria de cristãos pleiteie a cruz vazia como símbolo máximo da fé cristã – sem o corpo de Jesus a cruz remete para a Páscoa e a ressurreição –, ainda é o corpo sofrido de Cristo, pendurado no madeiro, que mais impressiona e mexe com a fé de milhões de adeptos em todo o mundo.

Numa sociedade que se afasta sistematicamente da morte e recusa contato com ela, não deixa de impressionar este laço afetivo tão forte com o Jesus Morto. Embora para muitos a alegria da Páscoa seja mais celebrada do que a visão da dor da Paixão sextafeirina, não é possível alegrar-se sem ter a cruz, o sangue, a coroa de espinhos, a sepultura, a dor das Marias, a insegurança angustiada dos discípulos, o sadismo dos soldados romanos e a covardia ambígua de Pilatos como panos de fundo.

É um velório anual repleto de luto, dor e estupefação. Não aceitamos a crueldade humana contra o filho de Deus. Repudiamos a condenação de um inocente. Não compreendemos, também, um pai que abandona o seu filho na cruz, à própria sorte, não se importando com o seu grito: “Eli, Eli, lama sabactâni!!!”.

É a mais intrigante frase de Jesus, que sai de sua boca moribunda e cobra o abandono e a solidão absoluta, justo na hora mais dolorida e angustiante. Um “por quê?” sem resposta, que continua ecoando de forma não-revelada pelos nossos corações. Como é possível? Transforma-se em soco no estômago, nas palavras de Saramago: Como podem os cristãos adorar um Deus capaz de matar o seu único filho na cruz?

Toda esta angústia que tais afirmações causam está na base, no cerne da história da nossa salvação. A Páscoa não existe sem o sangue de Cristo, escorrendo do alto daquela cruz sextafeirina. O véu do templo partido ao meio, na hora em que Jesus entrega o seu espírito nas mãos do pai que o sacrifica, rasga-se do mesmo modo que o nosso coração dolorido. Aliás, o pai que sacrifica o filho é o mesmo que botou a mão na faca de Abraão na hora H, salvando Isaque. Desta vez, ele recusou-se a impedir a ação do cutelo imolador na própria mão.

Como lidar com uma acusação dessas? Como conviver com a comparação de que também a fé cristã não abre mão da antiquíssima ideia religiosa do sacrifício, que perpassa as crenças desde os primitivos povos africanos, os maias e astecas, o judaísmo e, por herança direta, também nós cristãos, que entendemos a nossa salvação possível somente por meio da crucificação do nosso Mestre e Senhor?

Não há nisso tudo um prazer mórbido, que aprecia o sangue escorrendo pela vala do altar de sacrifício, saindo do corpo empalidecente do bode expiatório? Acusaram Mel Gibson de abusar do sangue no seu filme sobre a paixão de Cristo, mas ele não retratou fielmente o prazer, tão humano, de ver sangue alheio escorrendo? Ele repetiu a dose em Apocalypto e, sem muito esforço, é possível ver uma perigosa relação de parentesco entre os dois filmes. Católico fervoroso, também o coração de Gibson denuncia sua inconformidade com a relação sacrificial entre as religiões maia e cristã.

É quase um beco sem saída, especialmente numa sociedade acostumada a crer no prazer. Nela, não há nada que seja significativo, importante, de valor ou que leve ao sucesso – à salvação! – sem que tenha uma generosa dose de serotonina (a substância do prazer) envolvida. Talvez, por isso, não lidamos muito bem com a ideia do sofrimento como um caminho que possa produzir salvação.

As janelas da fé somente se abrem quando lemos João 20.19-31. Os discípulos estavam de luto e suas almas arrasadas derretiam rente ao chão, escondidos que estavam detrás de portas trancadas, quando Jesus apareceu no meio deles, dizendo: “Paz seja com vocês!”. Depois de dizer estas palavras reconfortantes, ele mostrou mãos e pés feridos e o seu lado aberto pela lança, no dia da crucificação. Tomé não estava ali, quando este contato imediato aconteceu. Para ele sobrou somente o relato do ocorrido. Como é também o caso de todos os cristãos depois dele, embora oito dias depois Tomé pudesse botar pessoalmente as suas mãos nas feridas do Mestre. “Felizes os que não vêem e crêem mesmo assim”, disse Jesus a Tomé.

A pecha de “ver para crer” é injusta com Tomé. Como vimos acima, não é fácil aceitar ou compreender o que ocorreu naquela deprimente e solitária sexta-feira na cruz. Até mesmo o apóstolo Paulo admitiu (1 Coríntios 1.23) que a pregação da cruz seria “escândalo” e “loucura” para muitos ouvidos. Mas depois de dois mil anos ainda a fé cristã se inspira e se fortalece nesta dinâmica de cruz e ressurreição, de trevas e luz, de morte e vida, que é tão difícil de compreender e aceitar segundo a razão humana.

Somos convidados a crer que, por meio da cruz e do sofrimento, Jesus nos pavimentou o caminho para a salvação. É difícil e até impossível, como Paulo escreveu, aceitar isso unicamente por meio da nossa fraca compreensão lógica.

Os artistas nos tem ajudado muito a compreender a paixão de Cristo, através da poesia, da pintura e da escultura, mas especialmente também da música. Na história da cultura ocidental merecem destaque especial as obras em torno da Paixão de Cristo compostas por Johann Sebastian Bach (1685-1750). Não é a toa que o século 20 lhe deu o codinome de “quinto evangelista”.

Na Paixão Segundo João, de Bach, há uma ária em especial (veja o vídeo acima), na qual o baixista e o coral atuam em conjunto, logo após a morte de Jesus na cruz. O baixo solo, que antes representava as palavras de Jesus, agora fala diretamente ao morto na cruz em comovente diálogo com o violoncelo, perguntando-lhe: “Meu amado Salvador, permite que sejas perguntado, já que estás a esta cruz pregado / e de ti disseste: está consumado, / Acaso estou eu da morte libertado?”. Nas entrelinhas, genialmente compostas por Bach, o coral responde baixinho no lugar da comunidade crente: “Jesus, que morto estavas, / agora sem fim vives. / Quando chegar minha hora final / eu não recorra a outro auxílio / do que a ti, que me reconcilias, / ó amado Senhor!”. Um diálogo musical que mostra o caminho para a salvação sem negar o sofrimento.

A sexta-feira da dor e o domingo da páscoa ocorrem um após o outro, mas no seu cerne estão estreitamente interligados. O sofrimento produz salvação. A cruz com o corpo ensanguentado de Jesus é um indestrutível passaporte para a vida, por meio da fé.

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