65 anos da execução de Dietrich Bonhoeffer

Busto de Bonhoeffer, no campo de concentração Flossenbürg

Logo ao amanhecer do dia 9 de abril de 1945 o pátio do campo de concentração Flossenbürg, em Regensburg, já está todo iluminado. Sete oponentes do regime nazista são retirados de suas celas. Entre eles há também um pastor luterano: Dietrich Bonhoeffer. Os prisioneiros são informados sobre o veredicto pronunciado na noite anterior por um tribunal da SS: pena de morte por alta traição. Bonhoeffer somente consegue pronunciar uma curta oração. Em seguida, ele é obrigado a livrar-se de suas roupas e a subir as escadas rumo ao cadafalso. “Raramente vi um homem morrer de forma tão entregue a Deus”, teria anotado mais tarde o médico do campo de concentração.

Bonhoeffer alcançou somente 39 anos de idade. Mesmo assim, poucos teólogos evangélicos do século 20 tiveram tamanha influência sobre a igreja e a sociedade como ele. Ruas e escolas, igrejas e casas comunitárias hoje recebem dele o nome. Um filme relata a sua história, “Bonhoeffer – O Último Degrau”, com Ulrich Tukur (1999).

O seu apaixonado protesto contra os nacional-socialistas, a sua participação ativa na oposição a Hitler, os seus livros e o seu martírio há 65 anos são admirados em todo o mundo. Na visão do ex-presidente da Igreja Evangélica na Alemanha, Wolfgang Huber, ele é um exemplo na fé e, neste sentido, um “santo evangélico”.

Bonhoeffer nasceu no ano de 1906 em Breslau, como filho de um professor de psiquiatria, e cresceu numa família de sete irmãos em Berlim. Foi aluno brilhante na universidade de Berlim, tornando-se livre-docente aos 25 anos de idade.

Ao complementar seus estudos em Nova York, ele experimentou a discriminação racial na própria pele. Residindo no bairro negro do Harlem ele e um amigo negro tinham que andar em bondes separados. No ano de 1932 ele se ocupa do Sermão da Montanha, o que o conduz de uma fé intelectualizada à ação. Ele agora quer conduzir sua vida no seguimento a Jesus e torna-se adepto dos ideais pacifistas.

Ele encara os nazistas como um perigo para a Alemanha. Já dois dias após Hitler ter tomado o poder em 1933, ele alerta num programa de rádio que o “Führer” (condutor) poderia tornar-se um “Verführer” (sedutor). Em abril do mesmo ano, impressionado com a perseguição aos judeus, ele sugere a necessidade de “não somente tratar das feridas dos que caem sob a roda, mas lançar a si mesmo entre os raios da roda”. Poucos aceitam o seu pensamento radical.

Estraçalhado pela polêmica na Alemanha, Bonhoeffer vai trabalhar em Londres como pastor no exterior. Em 1935 ele retorna e assume o seminário de pregadores da “igreja confessante” na Pomerânia, que faz oposição ao regime. Em 1938 ele fica sabendo dos planos de guerra de Hitler e de seu sonho de construir o Reich.

Em 1939 Bonhoeffer vai aos EUA proferir palestras e é convidado para assumir a docência. Ele entretanto logo retorna: “Eu preciso vivenciar este período difícil da nossa história ao lado dos cristãos na Alemanha”. E ele inicia uma arriscada vida dupla, engajando-se em 1940 no serviço secreto militar alemão, onde o seu cunhado e outros trabalham em segredo para a resistência. Agora ele é oficialmente agente da contra-espionagem. Na verdade, entretanto, ele engaja lideranças eclesiásticas no exterior nos planos de um golpe contra Hitler.

Em meio à confusão da guerra, Bonhoeffer fica noivo em 1943 da jovem Maria von Wedemeyer, de 18 anos. Entretanto, ele é preso já em abril, e sua namorada somente pode vê-lo a grande distância na prisão. Em sua cela em Berlim, Bonhoeffer escreve aquelas cartas a amigos e familiares que mais tarde tornam-se famosas sob o título “Resistência e Submissão”. Entre os textos está também a sua poesia “Protegido maravilhosamente por bons poderes”.

Quando fracassa o planejado atentado a Hitler, de 20 de julho de 1944, toda a grandiosidade da traição, em que estão envolvidos Bonhoefer, seu irmão Klaus e seu cunhado Dohnanyi, é revelada. Em abril de 1945, enquanto as tropas dos aliados já se aproximam de Berlim, os nazistas lançam o pastor no campo de concentração Flossenbürg. Hitler já havia ordenado a execução de todos os “traidores”. Bonhoeffer teria se despedido de um companheiro de cela com as palavras: “Este é o fim – para mim o início da vida”.
Fonte: www.ekd.de (Adaptação: Clovis Lindner)

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