Uma defesa dos direitos humanos


Quanto a essa história de dizer que quem defende os direitos humanos, na verdade, defende os direitos dos bandidos, é um argumento reducionista. Para qualquer pessoa que queira argumentar com seriedade sobre o tema, é um total despropósito e tem cheiro de difamação. A defesa dos direitos humanos é infinitamente mais ampla, séria e importante do que a defesa dos direitos dos bandidos.

É necessário ver um viés positivo neste debate. Eu me considero um intransigente defensor dos direitos humanos. Por isso mesmo, considero uma grande injustiça reduzir este debate ao nível do chão, como fazem muitos, inclusive neste blog.

Minha sincera luta vai em direção da defesa de uma sociedade que seja capaz de promover um relacionamento baseado no bom senso, na paz, no abandono da violência como forma de conquistar direitos. Minha inspiração está em biografias como as de Gandhi, Martin Luther King ou, mais recentemente, Nelson Mandela. É possível conseguir tudo sem apelar para a violência.

Creio que podemos construir uma sociedade sem diferenciações por causa de posses, aparência, grau de estudo, gênero, nacionalidade, cor da pele, classe social ou qualquer outra forma idiota de comparação entre seres obviamente iguais. Nada melhor do que um estudo de anatomia humana para confirmar que somos irremediavelmente feitos, todos, do mesmo jeito.

Creio também que todo ser humano tem direito a julgamento justo e defesa ao incorrer em delito e que, se considerado culpado, deve pagar por seu erro. Ainda assim, deve receber um castigo justo e tratamento humano enquanto paga pelo seu erro.

Mais. Acredito que sejamos capazes de instalar uma sociedade assim e que já demos passos importantíssimos na direção dela.

O passo mais importante, obviamente, foi a promulgação dos Direitos Humanos como um arrazoado de princípios básicos, sem fronteiras, válidos em todo o nosso pequeno planeta. Esta carta da ONU garante direito a pátria, emprego, casa/propriedade, salário justo, alimentação, estudo, tratamento humano até na prisão (sim senhor!), saúde pública e de qualidade, asilo em caso de perseguição, julgamento justo e conforme o direito internacional... e por aí vai.

Mesmo porque a nossa sociedade, graças a Deus, é constituída de 99% de gente honesta, trabalhadora e pronta a viver de forma digna. É por essa gente que vale a pena defender os direitos humanos. Não é pela insignificante minoria de desviados, bandidos ou imprestáveis...

E olha que essa proporção vale até mesmo para a favela da Rocinha ou para qualquer outra. Na Rocinha não há mais de 400 pessoas com ficha suja na polícia. A esmagadora maioria dos seus moradores é constituída de gente honesta, trabalhadora, temente a Deus, que tem amor aos seus, acredita na família e morre de medo da polícia e de desrespeitar a lei. Mas, do ponto de vista dos direitos humanos, estão completamente à margem do que a ONU considera vida digna.

Por eles, me desculpe, mas vou continuar apostando nos direitos humanos (sem aquelas irônicas aspas, por favor). É um compromisso ético, uma aposta de fé, uma convicção inarredável.

Conforme a ilustração acima, há uma regrinha muito simples que eu procuro seguir nessa questão dos direitos humanos: Pergunte-se a si mesmo o que gostaria que os outros fizessem em relação a você, então tome a iniciativa e faça-o você mesmo em relação a eles! Aliás, é uma regrinha que Jesus já havia ensinado aos seus discípulos (e, por meio deles, a todos nós): "Como quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles" (Lucas 6.31).

Entretanto, tenho discernimento suficiente para evitar o uso de argumentos morais infantis em defesa do que considero certo e errado (do tipo inspirado na religiosidade primitiva e inocente de muitos dos nossos frequentadores de igreja, ou até de filiados a partidos de qualquer ordem, coisa que nunca fui). Estou ciente de que a minha visão do que é certo e errado é subjetiva, e tenho abertura suficiente para colocá-la na vitrine do debate salutar. Espero, sinceramente, ser tratado da mesma maneira.

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