O Natal do burrico


Nesta noite de véspera de Natal, li para os meus a história de um livro natalino da Editora Sinodal, que narra a visão do burrico do espetacular acontecimento na noite de Belém. "Eu estava lá", diz o animal, que protesta por confundirem o seu nome com falta de inteligência. "Eu estava lá, enquanto animais como o leão, o rei da selva, o condor, o rei dos ares, e o tubarão, o rei dos mares, não estavam lá."

Ver o cenário do nascimento de Jesus do ângulo de visão do burro é muito interessante. E revelador. Mostra a extrema humildade da vida do maior rei de todos os tempos. E nós, seres humanos, tão apegados às pompas do poder e dos poderosos, não nos conformamos com tanta simplicidade e tamanho desprendimento.

Acostumados à ostentação, em nossa visão este rei maior deveria vir com a escolta de mil Harley-Davidson, confortavelmente acomodado no banco traseiro de uma reluzente Rolls-Royce. Ele deveria ser seguido de um gigantesco séquito de puxa-sacos com títulos de nobreza, enquanto a sua própria figura deveria estar envolta na mais fina seda, a cabeça coberta por uma coroa de ouro finíssimo e repleta do brilho de milhões de quilates de diamantes.

Mas, à nossa revelia, ele optou pelo caminho da humildade. Ele escolheu uma estrebaria, pela companhia de um burro contando a história da sua vinda. Ele escolheu para si ser coroado com uma coroa de espinhos. Ele decidiu ser gente como nós. Revelou uma face totalmente estranha à nossa visão de poder. Deus mostra um novo rosto, segundo Leonardo Boff, "um novo tipo de poesia e lirismo divino".

Segundo Boff, é exatamente por isso que o Natal nos fornece a chave para decifrar alguns dos mais profundos mistérios da existência humana. "As pessoas se perguntam angustiadas: por que a dor? A humilhação? Qual o sentido do sofrimento? As pessoas perguntavam a Deus e Deus silenciava", escreve o sábio teólogo.

"Agora no Natal, Deus fala. Com este menino no cocho de palha, Deus dá a resposta: ele nasceu pequeno, se fez história; resume tudo no presépio. Ali ele não explica o porque do sofrimento. Ele sofre junto. Ele não responde ao porquê da dor. Ele se fez homem de dores. Ele não responde ao porquê da humilhação. Ele se humilha. Já não estamos mais sós na nossa imensa solidão."

Este menino, segundo o Evangelho, é Emanuel, que quer dizer "Deus conosco". Esta é a maravilhosa e surpreendente história de um Deus que se fez criança, que não pergunta mas faz, que não responde mas se torna, ele próprio, a resposta. Ele vive a resposta; e quê resposta! Isto é Natal. É a noite mais iluminada da história humana. O mundo estreito e escuro em que vivemos tem saída, um desfecho feliz e abençoado. Por isso, podemos desejar FELIZ NATAL uns aos outros!

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