Não temos vergonha dos nossos muros



Em 1986 – lá se vão vinte e quatro longos anos! – eu estive pela primeira vez diante do muro de Berlim; cruzei o muro de Berlim; senti o clima de terror da Stasi à espreita nas ruas de Berlim Oriental permitidas para visitação dos turistas; ouvi um alemão oriental fugitivo dando depoimento no Check-point Charlie; senti o gelo subindo a espinha na hora de enfrentar a verificação do passaporte para voltar a Berlim Ocidental...

Dois anos depois, estive diante da Cortina de Ferro – mais de 1,7 mil quilômetros de cerca dupla, com minas terrestres e mais Stasi em torres de observação, espiando para o ocidente com metralhadoras em punho –, na região de Fulda. Em 1988 também estive em Dresden-Radebeul com a minha família, por uma semana, visitando primos da minha avó materna, com um carro alemão. O passaporte brasileiro facilitou algumas coisas, mas, um ano antes da queda da cortina de ferro, a Stasi virou aquele Monza do avesso antes de nos deixar seguir de volta para o Ocidente... Se alguém ousasse pensar em voz alta que, um ano depois, aquilo tudo iria para o espaço, ririam dele despudoradamente e o chamariam de louco.

Posso garantir que aquela foi uma das experiências mais arrasadoras e humilhantes da minha vida. O mundo inteiro entrou em choque com a Guerra Fria e o terror dominava a mente de todo cidadão ocidental consciente. Os protestos contra o muro de Berlim e a Cortina de Ferro eram diários, intransigentes, insistentes mesmo. Os países poderosos do Ocidente promoviam sanções e havia hostilidades explícitas, com exércitos inteiros na zona. Ainda sinto um arrepio na espinha quando lembro o som das esquadrilhas de caças-bombardeiro americanas fazendo voos rasantes sobre o território da Alemanha Ocidental (rasantes mesmo, a menos de 150 metros acima das nossas cabeças!).

Todos protestavam contra aquele barulho infernal e diuturno. Um clima constante de guerra, tudo para mostrar força e descontentamento por aquela cerca que separava vidas, economias, parentes, irmãos de sangue... Era o muro da vergonha. O mundo tinha vergonha dele...

E este novo muro do filme deste post? Um replay do muro da vergonha?

Você sabe onde fica essa nova área minada, de guerra fria (ou quente?) mesmo? É um gigantesco muro, ainda mais alto que o de Berlim, com as mesmas torres de observação, com os mesmos soldados prontos a atirar até numa lebre dentro da “zona proibida”... com a mesma política do terror, da morte, da intimidação, da humilhação, da exclusão, do ódio... Sim, é o novo muro da vergonha, erguido por Israel na Faixa de Gaza.

O mundo assiste calado, indiferente, dando “o maior apoio”...

Jamais imaginei que fôssemos capazes de repetir aquela barbaridade do século 20. Mas somos. E vamos ser capazes de repetir muitas outras vezes. Sabe porquê? Porque os EUA, que estão dando “o maior apoio” a Israel com o seu muro da vergonha, tem o seu próprio muro da vergonha, que separa, isola, exclui o território mexicano. Quem faz, apóia e aplaude seus imitadores.

O que fazer? Na cabeça de alguns de nós até já existe um muro – invisível ainda – entre o sul e o resto do Brasil... Maldita xenofobia! E este mundo, que é tão pequeno e se transformou numa aldeia global, está muito longe de ser uma grande família de seres humanos que se sabem iguais e que respeitam as suas diferenças. Talvez a maior marca da nossa aldeia seja mesmo uma vida típica de aldeia provinciana, em que se sente inveja, se despreza o visinho...

Quem cerca a sua casa e a isola do visinho, não terá escrúpulos em levantar muros contra outros povos, outra religião, outros de qualquer espécie... O pior de tudo, é que não temos vergonha dos nossos muros, achando-os normais, pertinentes, justificados.

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