O meu Menino Jesus


Poema de Fernando Pessoa

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna criança, o Deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
é esta minha quotidiana vida de poeta,
e é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
e que o meu mínimo olhar enche-me de sensação,
e o mais pequeno som, seja do que for, parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
dá-me uma mão a mim e a outra a tudo que existe,
e assim vamos os três pelo caminho que houver,
saltando e cantando e rindo e gozando o nosso segredo comum
que é o de saber por toda a parte que não há mistério no mundo
e que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons.
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
na companhia de tudo, que nunca pensamos um no outro,
mas vivemos juntos a dois, com um acordo íntimo,
como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas no degrau da porta de casa,
graves como convém a um poeta,
e como se cada pedra fosse todo um universo
e fosse por isso um grande perigo para ela deixá-la cair no chão.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Ele dorme dentro da minha alma
e às vezes acorda de noite e brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar, põe uns em cima dos outros
e bate palmas sozinho, sorrindo para o meu sono.

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão, que se perceba,
não há de ser ela mais verdadeira
que tudo quanto os filósofos pensam
e tudo quanto as religiões ensinam?”

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