O jovem na berlinda


A igreja luterana (IECLB) fez uma excelente escolha temática para 2012. Coloca na mesa um assunto urgente no Brasil, a juventude. A formulação ficou muito ampla – Comunidade Jovem, Igreja Viva –, mas a esperança é de que as questões prementes que envolvem as gerações mais jovens da igreja e da sociedade sejam realmente consideradas. Para muito além do âmbito eclesial, o assunto vem à tona neste final de ano em especial por causa de um relatório dramático sobre a juventude brasileira. O relatório foi produzido pela Unicef, e foi divulgado no último dia de novembro.

Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância, o adolescente brasileiro está mais pobre e permanece exposto a casos de violência em nível preocupante. Dos 21 milhões de adolescentes brasileiros de 12 a 17 anos, 38% – cerca de 7,9 milhões – vivem em situação de pobreza, em famílias com renda inferior a meio salário mínimo per capita por mês (R$ 272,5). Outros 3,7 milhões de adolescentes (17,6% da população adolescente) vivem na extrema pobreza, em famílias com até 1/4 do salário mínimo per capita/mês (R$ 136,25).

O relatório também aponta que, de 2004 a 2009, o número de adolescentes na extrema pobreza passou de 16,3% para 17,6%, em descompasso com a crescente redução da pobreza no país. O Unicef utilizou dados oficiais do governo brasileiro para a obtenção das informações.

Também há muitas mortes violentas na faixa dos 12 aos 17 anos. Com base em dados do Ministério da Saúde, o Unicef observa que 19,1 meninos e meninas em cada grupo de 100 mil pessoas morreram vítimas de homicídio em 2009, o que equivale a 11 assassinatos de adolescentes por dia no país. A cada 100 mil adolescentes, 43,2 deles morrem por homicídio.

As condições de vida do adolescente se agravam quando são destacadas por cor da pele. Segundo o relatório, um adolescente negro tem 3,7 vezes mais risco de ser assassinado em comparação com adolescentes brancos. A mesma lógica se aplica entre adolescentes indígenas em casos de analfabetismo: as chances são três vezes maiores do que a dos adolescentes em geral.

As distorções por gênero também merecem atenção, de acordo com o Unicef. Existem 10 casos de meninas infectadas por HIV para cada 8 de meninos. São os meninos, contudo, que apresentam a maior taxa de analfabetismo: 68,4% não sabem ler e escrever.

Conforme o relatório, a situação de pobreza é maior na Amazônia, que concentra 38% dos adolescentes pobres no país. Já o semi-árido lidera nos índices de distorção idade-série, com 35,9%. Entre os grandes centros urbanos, o destaque é São Paulo, com média de 10,7 homicídios de adolescentes entre 10 e 19 anos para cada grupo de 100 mil adolescentes.

Um quadro preocupante, esse revelado pelo relatório da Unicef. O descaso do Brasil com a sua população mais jovem é evidente. Demonstra o quanto está de fato empenhado em estabelecer um bom futuro para as gerações que vêm aí, em busca de espaço no mercado de trabalho, de condições de vida dignas e de conquista de direitos. Os dados desse relatório devem ser levados em conta nos debates em torno do tema da IECLB para 2012, sob pena de, se isso não ocorrer, estarmos falando de uma pseudo-realidade.

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