A história da mercadora do tempo



Ruth Belville recebe um certificado do Observatório Real de Greenwich autorizando-a a comercializar a hora certa em Londres em troca de uma taxa.

“Tempo é dinheiro”, é uma frase bastante conhecida. E é verdade. No passado, isso até foi literalmente verdade. Numa época como a nossa, em que bilhões de precisas maquininhas movidas a quartzo mundo afora e mostradores digitais onipresentes em quase todos os eletrodomésticos se esforçam para informar a hora, esta é uma tarefa muito simples. Mas isso é assim há pouquíssimo tempo.

Esta mulher da foto acima é Ruth Belville. Ela é a expressão máxima de que tempo é dinheiro, e isso de modo literal. Durante quase meio século, a partir de 1892, ela vendia a hora certa pelas ruas de Londres. No auge da carreira, a mercadora do tempo tinha mais de 200 clientes fixos, que lhe pagavam um dinheiro diário pelo serviço de receber a sua visita. Em troca do dinheiro, ela mostrava um relógio de bolso, rigorosamente acertado na primeira hora da manhã no Observatório Real de Greenwich.

Ruth havia herdado o seu negócio do pai, John Henry Belville. John era assistente do astrônomo real John Pond, responsável por manter o relógio do observatório pontual. Como naquele tempo era extremamente difícil saber a hora certa, todos os dias uma fila de gente batia à porta do Observatório Real para saber a hora certa. Era tanta gente interrompendo o trabalho do astrônomo, que no ano de 1836 ele perdeu as estribeiras.

Profundamente incomodado com as constantes interrupções, ele encarregou seu assistente de organizar um serviço de informação da hora certa. O assistente Belville recebeu um caríssimo relógio de bolso de precisão, fabricado pelo relojoeiro londrino John Arnold & Son, com o qual ele ia diariamente ao centro da cidade para informar a hora certa em troca de uma módica taxa. Foi o jeito que o astrônomo encontrou para voltar a ter paz no local de trabalho.

O negócio do mercador do tempo cresceu em importância rapidamente, numa Londres em que saber a hora certa era uma tarefa extremamente difícil.  Até o limiar do século 18 chegava a ser uma peripécia saber a hora certa na Inglaterra. Cada vila tinha a sua própria hora e a diferença de uma vila para a outra chegava a mais de 20 minutos ou até a meia hora. Mas como na época tudo se movimentava com cavalos e carroças, poucos percebiam tais diferenças.

Essas diferenças começaram a se fazer notar e a tornar-se um problema com o advento dos trens. Organizar a crescente malha ferroviária inglesa com tantos horários diferentes entre as estações era quase impossível e os acidentes eram bastante comuns, além dos sistemáticos atrasos de trens.

Somente em 1840 a companhia de trens Great Western Railway determinou que em suas paradas houvesse um único horário válido, criando o Railway Time, que se tornou o primeiro padrão de horário em vigor na Inglaterra. Todos os relógios deviam ser acertados pelo horário mais preciso em vigor no reino, o do Observatório Real de Greenwich.

O padrão de Greenwich conquistou cada vez mais adeptos e, em pouco tempo, as outras companhias de trens adotaram sistema semelhante. Greenwich crescia tanto em respeito e confiabilidade, que era ponto de honra para os relojoeiros acertar seus relógios pelo do observatório. Os melhores relógios mantinham a hora certa de Greenwich por dias e, para os cidadãos mais abastados, ter o horário certo de Greenwich em seu relógio de bolso era questão de status.

Com a morte do assistente John Belville em 1856, a sua mulher assumiu o negócio de mercadora do tempo até 1892, passando-o para a filha Ruth, período em que o serviço de hora certa alcançou seu auge. No início do século 20, a hora por sinal de telégrafo e, mais tarde, um serviço por telefone, foram aumentando a concorrência à “Greenwich Time Lady”, que encerrou sua atividade em Londres pouco antes do início da segunda guerra mundial.

Em 24 de julho de 1936 foi criado um novo serviço de hora certa por telefone, pelo qual uma gentil senhorita informava a hora depois que a pessoa discasse os números 846, respectivamente as letras T, I e M. No primeiro ano, “Tim” (como o serviço logo ficou conhecido) recebeu 20 milhões de ligações somente em Londres. Em 1939 Ruth encerrou seu serviço como “Greenwich Time Lady”, quando tinha somente 50 clientes fixos.

(Fonte das informações: www.einestages.spiegel.de)

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