Animais também sentem


Vivissecção é um palavrão. Esconde a barbárie atrás da sua erudição. Ela é a referência a uma prática que acontece todos os dias, agora mesmo, entre as assépticas quatro paredes dos laboratórios de pesquisas, em indústrias e universidades de todo o mundo. Em sentido amplo, refere-se ao uso de seres vivos para pesquisas e experimentos em laboratório ou para estudar anatomia e fisiologia. Para os animais, que são submetidos a verdadeiras sessões de tortura em nome da ciência, a vivissecção representa sofrimento e dor.

Experiências de toda ordem empregam mamíferos, de pequenos roedores a símios do tamanho de humanos, para testar medicamentos, produtos de beleza e reações aos mais diversos produtos. Eles sofrem amputações de membros sadios para testar próteses, recebem injeções de produtos tóxicos ou têm substâncias aplicadas sobre a pele para testar os seus efeitos, ou ainda, recebem implantes com aparelhos em seus órgãos internos para serem monitorados e diversas outras formas de atos invasivos que atingem diretamente seus organismos.

Tudo com a justificativa de pesquisar em nome da ciência e para o bem da espécie humana. Como se esta justificativa desse à nossa espécie a primazia sobre as demais para qualquer coisa. Na era do avanço das pesquisas de Bioética, isso é inadmissível. A Bioética não se resume ao questionamento de pesquisas sobre sementes transgênicas. Especialmente aqui o humano deveria falar mais alto do que a justificativa da pesquisa.

A vivissecção é uma prática tão corriqueiramente aceita, que nem mesmo há estatísticas oficiais de quantos animais são sacrificados em nome da pesquisa. Um livro com o apropriado nome de Holocausto (Heller e Manzoli) afirma que são mortos assustadores 400 milhões de animais por ano nesse tipo de prática.

Mas o pior lado disso tudo é que a justificativa humanitária, de usar os bichinhos na pesquisa que salva vidas humanas, apenas disfarça o que realmente está por trás de todas as pesquisas: o lucro. No fundo, mesmo, o que quer a indústria farmacêutica, os laboratórios e até as universidades é ganhar dinheiro com as pesquisas (ou com a formação de profissionais, na era da indústria dos diplomas).

Há outras práticas possíveis, que esvaziam o discurso de que o sacrifício de animais é necessário para o bem da ciência. Segundo o biólogo brasileiro Sérgio Greif, é possível trabalhar com simuladores mecânicos ou computadorizados, usar a realidade virtual, e até animais mortos por causas naturais. Também há diversas instituições internacionais com uma coleção de argumentos contrários à prática, e sem apelo a uma defesa piegas dos animais. Universidades consagradas, como Harvard, Columbia e outras, não usam mais animais em suas pesquisas ou aulas de anatomia dos cursos de medicina. Além do mais, há diversos estudos que comprovam que mais de 51 por cento das drogas lançadas entre 1976 e 1985 apresentaram riscos aos seres humanos que não apareceram na fase das pesquisas com cobaias.

A prática da vivissecção, que pode ser qualificada sem medo de erro como uma barbárie, ainda se baseia em conclusões apressadas do passado, como, por exemplo, a idéia de que os animais não têm sentimentos ou não elaboram reações típicas da espécie humana, como o medo e o stress. Hoje se sabe com toda a certeza, que bois na fila do abate, ao sentirem o cheiro do sangue dos seus pares que morrem na sala ao lado, sentem-se tão estressados e destroçados pelo pavor quanto um ser humano às vésperas da sua execução numa cadeira elétrica.

Como eu já vi, pessoalmente, um pequeno pássaro tentando desesperadamente reanimar sua companheira morta por um carro, no meio da rua, sobrevoando-a e puxando-a para cima na tentativa de vê-la voltar a voar, eu acredito no sentimento dos animais. Por menores que sejam; até ratos de laboratório o possuem.

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