Os leões que a Palestina enfrenta



A Palestina tem dois leões para enfrentar. O primeiro, todo mundo sabe, é Israel. O segundo são os EUA.

Ainda na semana passada, eu tive oportunidade de palestrar para um grupo de homens em Balneário Camboriú, da Legião Evangélica Luterana da comunidade local, sobre o confronto entre Israel e Palestina. Falamos sobre as origens históricas do conflito, a criação do Estado de Israel, que é um equívoco teológico confundir o Israel bíblico com o moderno Estado de Israel, essas coisas. Vimos que o próprio povo de Israel fica vexado com a agressividade bélica contra a Palestina, praticada pelo governo e exército israelense.

Falamos sobre toda a dramática situação na fronteira da Faixa de Gaza, onde não há somente agressões mútuas diárias, mas onde o povo palestino é humilhado todos os dias nos postos de controle. A cada dia, antes de ir ao trabalho, uma dose maciça de humilhações de toda ordem, praticadas por moleques de 17 ou 18 anos, milicos de Israel, que se acham a última bolacha do pacote com um fuzil na mão.

Vimos a própria realidade dentro de Gaza, uma faixa de terra de 40 quilômetros de litoral e 14 de largura em que se amontoam 1,5 milhão de palestinos, num gigantesco “campo de concentração”, como bem descreveu um dos legionários durante a palestra. Neste, que é o local de maior densidade demográfica do planeta, quem mais sofre (como sempre!) são, pela ordem, as crianças, as mulheres e os idosos (estes por último porque, nessas condições, poucos chegam a ficar velhos).

Também falamos da realidade na Cisjordânia, onde os assentamentos israelenses desrespeitam qualquer linha divisória e sistematicamente invadem o território destinado aos palestinos. Quando o assentamento está pronto, tem água até para piscina (coisa escassa no outro lado), é cercado e tem acesso com autopistas, também cercadas, com travessias somente por postos de controle. Do lado de dentro, fartura e abundância. Do lado de fora, miséria e carestia.

Ainda falamos do muro de concreto na divisa, uma repetição absurda do velho muro de Berlim, só que agora com oito (!) metros de altura. Não há compreensão capaz de absorver tamanha insensibilidade para um povo que viveu o Gueto de Varsóvia, os campos de concentração e a terrível experiência do holocausto. Mas volto a afirmar que não é todo o povo de Israel, mas o seu governo. Nada mais vou dizer sobre isso. Veja você mesmo, no filma Lemon Tree.

Bem, a solução está longe das vistas da nossa e das futuras gerações. Israel não vai desistir enquanto não tiver eliminado os palestinos da face da terra. Depois, talvez, dirija as suas baterias de ódio contra outros países árabes, pois a Jordânia, a Síria e diversos outros ousaram ir contra Israel e defender a Palestina.

Agora, voltemos aos dois leões. O leão de Judá nunca será domado. Mas o outro faz jogo sujo, mesmo. Os EUA defendem Israel como se estivessem com os olhos vendados, cegos, teologicamente fundamentalistas e eternamente apocalípticos. Os americanos não estão nisso apenas como governo dos EUA. Estão nisso como povo. Acreditam que ninguém pode ir contra o “povo de Deus”, pois a sua vitória no oriente médio é conditio sine qua non para que o juízo final aconteça. As igrejas nos EUA são a favor de Israel e contra a Palestina. Um é o povo de Deus. O outro é um povo terrorista, que deve ser eliminado, como um cão sarnento.

É essa fé fundamentalista que elege o congresso americano que, por sua vez, amordaça quem está no governo ou desamarra a mão. Obama é refém deste congresso, comandado por fundamentalistas. E qualquer um será. Jimmy Carter conseguiu alguns avanços porque havia uma conjuntura muito favorável no Oriente Médio em seu tempo. Um enorme vacilo dos fundamentalistas deu a ele a chance de fazer algo por uma paz, que não veio porque eles acordaram logo. Depois dele, só jogaram lenha naquela fogueira.

Agora, o Leão americano resolveu chantagear. O primeiro-ministro de Israel, Benjanim Netanyahu, exigiu ação dos EUA contra a proposta do chefe da Autoridade Palestina, Mahamoud Abbas, de colocar em votação na ONU o reconhecimento do Estado Palestino, e a resposta não demorou. Segundo a edição domingo do jornal ingês The Telegraph, os americanos ameaçam a ONU com o corte dos fundos norteamericanos para manutenção da organização, como forma de pressão contra o reconhecimento da Palestina.

Se a estratégia de Netanyahu obtiver êxito, a coisa pode ficar feia para a ONU. Por outro lado, que diferença faz? A ONU é o boneco ventríloquo dos EUA faz um bocado de tempo. Se desaparecer, pode abrir espaço para uma nova era na humanidade. Talvez sem a interferência pelega da ONU possa ser encontrada uma solução pacífica para o Oriente Médio.

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