Ajuda para o desenvolvimento é ajuda?

Quando a ajuda para o desenvolvimento vira espetáculo da mídia.

Ajuda para o desenvolvimento realmente ajuda e promove desenvolvimento? Esta é uma pergunta antiga e inquietante. Já nos anos 1980 ela incomodava. Quando estive na Alemanha no ano de 1988 para um período de estudo autoprogramado, em diversos cursos de que participei a inundação da América Latina e da África com os marcos e os dólares da Entwicklungshilfe era criticada. "De cada marco que a República Federal da Alemanha coloca na África como Ajuda para o Desenvolvimento, ela retira três marcos de volta", afirmavam os críticos.

Ou seja, é uma ajuda em termos. Ela é positiva até certo ponto, mas tem uma série de graves inconvenientes e consequências nefastas. Em primeiro lugar, ela alivia as consciências pesadas dos doadores, que "compram" a sua paz espiritual com o dinheiro que doam aos pobres. Em segundo lugar, ela cria dependência, porque quase sempre é aplicada de modo equivocado, por gente não preparada e por doadores que não têm informações suficientes sobre os projetos e não promovem o acompanhamento necessário para garantir que a aplicação dos recursos realmente beneficie quem de direito. Em terceiro lugar, ela é uma excelente propaganda para os doadores e muitas vezes apenas resultou em bons documentários, que viraram espetáculo sobre a pobreza dos outros e a ajuda prestada. Em quarto lugar, poucas vezes promoveu a independência dos que recebem a ajuda, pois os doadores impuseram o seu modo de resolver o problema e o dinheiro doado veio embrulhado em know-how transferido de forma impositiva ao país que recebe os recursos.

Há ainda diversas outras "rebarbas" desse esquema que envolve a "Entwicklungshilfe". Também as igrejas e organizações ecumênicas, como a Igreja Evangélica da Alemanha, Pão Para o Mundo, Misereor, Federação Luterana Mundial e Conselho Mundial de Igrejas, depois de muito apanhar com isso, resolveram dar um passo adiante. Criaram Act-Aliance, uma entidade ecumênica e multi-organizacional que presta ajuda in locco para a aplicação dos recursos. É uma nova tentativa de fazer com que a ajuda para o desenvolvimento seja ajuda e promova desenvolvimento.

Por enquanto, não há muito o que comemorar. É o que demonstra cabalmente um documentário alemão sobre o tema. Exibido no 20° Festival de Cinema de Hamburgo, o filme "Doce veneno – Ajuda como negócio" registra as consequências da ajuda ao desenvolvimento equivocada na África, no decorrer das últimas décadas. Leia matéria completa sobre o tema aqui. A denúncia do documentário de Peter Heller, que tem quatro décadas de estrada no ramo de documentários acompanhando programas estatais de ajuda na África, vai levantar muitos questionamentos e confirmar velhas perguntas, como as que já martelam a minha cabeça desde os anos 1980. Leia todo o artigo, publicado no site da Deutsche Welle.

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