Os morangos que não cabiam


Durante muito tempo, a cristandade tem enfatizado que o ser humano é o ápice da Criação. Segundo o Gênesis – que não é, não deve e não pode ser encarado como um relato científico da origem das coisas, mas como um credo primitivo de que Deus criou tudo! –, Deus concluiu a sua criação moldando um boneco de barro à sua imagem e semelhaça e soprando o fôlego da vida em suas narinas. Este último ato da criação foi uma espécie de morango no topo do seu bolo criativo.

Mas o tempo provou o contrário. No seu íntimo, Deus deve ter se arrependido sinceramente do seu exagero criativo. Um arroubo criativo final, que poderia ter ficado de fora. Não fazia falta alguma. Tudo era perfeito naquele bolo. O problema eram os morangos. Não cabiam.

Não é de hoje que se pensa assim. Encontrei uma verdadeira pérola do padre António Vieira (1608-1697) sobre este tema. António veio de portugal aos seis anos e aqui tornou-se padre jesuíta. Foi um incansável defensor dos direitos humanos dos povos indígenas, indignando-se com a sua escravização e exploração. Ele também defendia os judeus e os cristãos-novos (judeus convertidos ao catolicismo), que eram implacavelmente perseguidos pela inquisição e, por causa disso, vinham em grande quantidade ao Brasil Colônia para esconder-se. Ele foi um dos críticos da inquisição e dos sacerdotes da sua época.

Grande orador, o padre António não ficou na Colônia, tornando-se diplomata em Portugal e foi nomeado pregador régio da Corte Real. Num sermão, que ele proferiu no ano de 1650, na Capela Real, o padre António Vieira disse:

“No primeiro dia da criação, criou Deus o Céu e a Terra e os elementos, e é certo em boa filosofia, que não ficou nenhum vácuo no Mundo, tudo estava cheio. Com isto ser assim, e parecer que não havia já lugar para caber mais nada, ao terceiro dia vieram as ervas, as plantas e as árvores; e com serem tantas em número e tão grandes, couberam todas. Ao quarto dia veio o Sol, e sendo aquele imenso planeta cento e sessenta e seis vezes maior que a Terra, coube também o Sol; vieram no mesmo dia as estrelas tantas mil, e cada uma de tantas mil léguas, e couberam as estrelas. Ao quinto dia vieram as aves ao ar, e couberam as aves; vieram os peixes ao mar, e com haver neles tantos monstros de disforme grandeza, couberam os peixes. No sexto dia vieram os animais tantos e tão grandes à Terra, e couberam os animais. Finalmente veio o homem, e foi o homem o primeiro que começou a não caber (...).”

Comentários

  1. Seu blog temperou minha vida, mais uma vez!!!
    Obrigada! A propósito, sempre gostei dos sermões de Padre Antonio Vieira...
    Abraços, Nice

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  2. Anônimo disse...
    Muito interessante o seu artigo. Mas não tenho certeza se foi Deus que se "arrependeu" de ter colocado o tal morango no bolo, ou se foi o ser humano que começou a confundir as coisas, achando que podia ser Deus. Aliás, é o que ele continua fazendo até hoje...
    Abraço,
    Anamaria

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