Hoje é o dia da Mama África


Hoje é o Dia da África. A data foi instituída pela ONU e tem o objetivo de apontar para as mazelas do continente e, ao mesmo tempo, para os seus avanços. No primeiro mundo, quase nada se sabe sobre a África. Nos EUA, por exemplo, ao longo do ano passado o total das inserções de notícias sobre os países da África na televisão não passou de três minutos. Ao longo de todo um ano!

No resto do mundo, esta realidade talvez comece a modificar-se drasticamente durante o próximo mês, em função da Copa do Mundo de Futebol na África do Sul. Mesmo assim, o que se poderá ver será uma África muito diferente daquela que está oculta nos bastidores da festa do futebol.

Mesmo na África do Sul – que é de longe o mais bem-sucedido país de toda a região sub-saariana do continente – há muita miséria e sofrimento. No país, o desemprego está girando na casa dos 20 por cento, ou seja, um em cada cinco sul-africanos em idade de sustentar a família está desempregado! Além disso, o país tem um dos mais altos índices de contaminação por HIV/Aids da África, uma tragédia humana que grita aos céus, para a qual o mundo todo tem fechado os olhos solenemente.

No resto do continente, há tragédia sobre tragédia, empilhada uma sobre a outra. Além dos óbvios buracos ainda visíveis do tempo da dilapidação pelo tráfico de escravos, há também as marcas terríveis da colonização europeia do continente – que para espanto de muitos não teve só a participação dos ingleses, mas também de franceses, belgas, holandeses, portugueses, espanhóis e, pasmem, até dos alemães.

A principal delas é a divisão aleatória da África em países que não respeitam as antigas fronteiras tribais e étnicas. O resultado é um caldeirão que mistura o que não deve ser misturado, sob óbvio risco de explosão. Consequência disso é uma guerra fratricida após a outra, com genocídios como o de Ruanda (anos 1990) ou o que está acontecendo no Sudão agora mesmo. Como lá não há petróleo, os eternos "juízes" do planeta julgam-se livres de qualquer responsabilidade e não se envolvem, porque só têm a perder e nada a ganhar. Muitas dessas desastradas tentativas de colonização foram perpretadas com a Bíblia na mão, com a sincera e convicta determinação de evangelizar os povos africanos e livrá-los da sua perdição. Enquanto os levavam a Cristo, desconstruíam deliberadamente suas culturas "atrasadas e primitivas".

Mas o mais grave problema do continente é o da fome. Aqui no Brasil tem muita gente criticando o Lula por estar investindo na África e até perdoando a dívida de alguns países. É no mínimo gente insensível, que tranca a porta do seu armário abarrotado de comida e critica quem estende um pedaço de pão ao faminto.

A verdade é que a fome na África é uma vergonha para o mundo, num planeta que desperdiça comida e tem o suficiente para que toda a humanidade se alimente. Nada justifica que, em pleno século 21, ainda tenhamos os mesmos problemas que dizem respeito à Idade Média. Talvez a fome das crianças africanas não nos importune tanto assim – infelizmente, é preciso reconhecer – porque não são loirinhas, de olhos azuis. Se assim fossem, talvez despertariam nossa compaixão com mais facilidade.

Eu ainda teria muitas outras coisas para dizer. Mas vou parar por aqui, cheio de esperança de que, um dia, o continente africano seja integrado à comunidade humana mundial com mais igualdade, com acesso pleno à vida digna, que, por enquanto, estamos reservando somente para os nossos. Por hoje, o Dia da África é um daqueles dias de intercessão, em que peço a Deus olhos que vejam, lábios que falem, ouvidos que ouçam e mãos que toquem a dura realidade daquela gente.
(EM TEMPO: Mama África porque o continente africano é o berço da humanidade. Estamos tratando muito mal a nossa mãe.)

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