Em nome de Deus?

O filósofo judeu Martin Buber, na versão de Andy Warhol

“Deus é a palavra mais vilipendiada de todas as palavras humanas. Nenhuma tem sido tão manchada, tão mutilada... As gerações humanas têm feito rodar sobre esta palavra o peso de sua vida angustiada, e a têm espremido contra o solo. Jaz no pó e suporta o peso de todas elas. As gerações humanas, com seus partidarismos religiosos, têm desgarrado esta palavra. A têm matado e se deixado matar por ela. Esta palavra leva suas impressões digitais e seu sangue... Os homens vestem um manequim e escrevem debaixo dele a palavra ‘Deus’. Assassinam-se uns aos outros e dizem: ‘o fazemos em nome de Deus’... Devemos respeitar os que proíbem esta palavra, porque se rebelam contra a injustiça e os excessos que com tanta facilidade se cometem com uma suposta autorização de ‘Deus’.”

Este desabafo de Martin Buber me faz pensar que o recém-falecido escritor José Saramago tinha razão na sua ácida crítica às religiões. Nós, em nossas instituições, templos e redutos sacerdotais temos abusado todos os dias, manifestando atitudes tão vilmente humanas. Mas nos apresentamos como pretensos defensores do juízo de Deus e, em Seu nome, temos cometido tantas barbaridades que já não podemos cobrar de Saramago sua total descrença.

Transformamos Deus no argumento do nosso ódio, do nosso desprezo pelo pensamento diletante do próximo, ou o usamos para justificar nossa reprovação rasteira à sua mais ordinária aparência exterior. Quanta arrogância, enlamear o nome de Deus para justificar a nossa pequenez.

Em vez de provocar editoriais azedos nos jornais da Igreja, a coerência de Saramago deveria acender a luz vermelha da autocrítica. A sua reflexão teológica às avessas deveria ser um espelho para a teologia e a prática das religiões. Devíamos falar menos em nome de Deus e nos calar, para dar mais ouvidos ao que Ele tem a dizer.

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