Quem é culpado pela lambança?


A catástrofe interminável; assim já é conhecida, entrementes, a maior tragédia da história humana da exploração de petróleo. No início ela foi comparada ao desastre do petroleiro Exxon Valdez, em 1989.

Mas, aos poucos, depois de 40 dias de óleo jorrando do fundo do mar, a referência é outra. Cada vez mais especialistas não têm dúvida: em termos de desastres motivados por causa da sede humana por todo tipo de energia, o parâmetro agora é Chernobyl. Quem se lembra da explosão da usina atômica na Ucrânia?

Bem, isso foi em 1986. Quem nasceu naquele ano, já tem 24 anos. Mas, para quem nunca viu, pode fazer uma viagem virtual pela “Terra dos Lobos” e conhecer as cidades fantasmas da região (http://www.kiddofspeed.com/chernobyl-land-of-the-wolves/author.html). Elas estão lá, como um mórbido museu da maior tragédia atômica depois de Hiroshima e Nagasaki.


Agora o cenário mórbido se repete num jorro interminável, em milhões de fotos que nos vêm da região do desastre no Delta do Mississipi. Pássaros endurecidos por camadas de asfalto, praias soterradas no betume, conchas marcadas para sempre com a lambança da maior fonte de energia da globalização. São imagens terríveis, apocalípticas.

Elas abalam nosso emocional porque sequer conseguimos calcular a enormidade dos estragos. Elas nos frustram, porque não há qualquer perspectiva de que se encontre alguma solução que, ao menos, amenize o desastre. Há 40 dias não pára de jorrar óleo em estado bruto do buraco aberto no fundo do oceano. Relatos recentes de especialistas dão conta de que a menor parte do óleo está subindo à superfície. Há uma gigantesca manta asfáltica no fundo do mar...

As imagens nos revoltam e fazem a nossa raiva contra as multinacionais do petróleo chegar a níveis nunca vistos. A British Petroleum não é capaz de desenvolver uma tecnologia para lacrar um poço no fundo do mar? O que é isso? E a Petrobrás teria? Como vamos explorar o pré-sal?


É bem-visto quem critica tudo isso, quem protesta, escreve artigos irados sobre essa lambança. É “de bom alvitre”, como se dizia antigamente. Entretanto, mesmo que se deva criticar autoridades corruptas que abrem concorrências e permitem que sejam usadas técnicas de perfuração não testadas ou aceitem que companhias que não sabem o que fazer na hora do acidente possam explorar petróleo, a tragédia do Golfo do México é culpa de todos nós.

Não importa se somos apenas consumidores que compram toda sorte de produtos de plástico, como turista que asperge toneladas de querosene de aviação pela estratosfera, como operário que vai ao trabalho de carro ou como cidadão que não se engaja suficientemente para obrigar seu governo a mudar a política energética. No fundo no fundo, o culpado por tudo isso é a nossa sede de petróleo, cada vez mais prospectado por causa da crescente procura. É essa nossa sede que leva empresas como a BP ou a Petrobrás a continuar procurando por reservas novas e cada vez maiores e mais profundas, com perfurações cada vez mais perigosas e arriscadas.

Em torno de 86 milhões de barris de petróleo são consumidos no planeta terra todo santo dia! Nada mais, nada menos do que 14 bilhões de litros diários, consumidos para gasolina e diesel, medicamentos, fertilizantes e produtos têxteis, embalagens, detergentes e tintas.

E essa sede está longe de terminar ou, ao menos, de ser reduzida. Se eu e você parássemos neste momento de usar o carro, a moto, o ônibus e passássemos a andar só de bicicleta e a pé, ainda assim haveria uma infindável montanha de plástico ligada ao nosso modo diário de levar a vida, ainda que dita “sustentável”. Tudo muito fresquinho e prático nas nossas geladeiras, tudo muito colorido no nosso armário, e o próprio tão bem coladinho, feito de inocente MDF e acabamentos em plástico e silicone. A tinta dos livros e jornais, os tubos de pasta-de-dente, a esferográfica, o CD do Acústicos Valvulados, os vasos de flores. E todo este consumo sobe ainda mais quando a economia vai de vento em popa, como a brasileira no momento.


Além da nossa parcela de culpa neste desastre, o problema vai ficar ainda maior, porque todo este óleo um dia vai acabar. Os especialistas somente ainda não chegaram a um acordo sobre a data a partir da qual não será mais possível extrair mais e mais óleo do fundo do planeta. Alguns dizem que isso já aconteceu em 2007 e as reservas devem acabar em três ou quatro décadas.

As maiores reservas ainda existentes estão cada vez mais fundo, no Golfo do México – onde acontece a atual tragédia –, na África Ocidental e no nosso pré-sal. Para fugir dos brigões do Oriente Médio, os gastões de óleo estão cavando a profundidades de mais de 3 mil metros para dar ao povo – e a cada um de nós também – o óleo nosso de cada dia. Enquanto isso, culpamos as petrolíferas, que botam a cara para bater em nosso nome, para garantir o nosso progresso.

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