Um Index para defender o pensamento único?

Para combater o movimento da Reforma, no ano de 1559 durante o Concílio de Trento, a igreja de Roma criou uma lista de livros que ninguém devia ler. Era o Index Librorum Prohibitorum (Lista dos Livros Proibidos).

Obviamente, as obras dos reformadores constavam desta lista. Por incitação de Roma, os livros de Martim Lutero foram queimados em praça pública. Quando o Reformador luterano foi excomungado, ele queimou a Bula Papal também.

Durante os séculos, a lista foi incluindo todo tipo de livros, até mesmo romances e obras de pensadores famosos. Tanto assim que a 32ª e última edição do Index, publicada pela Cúria Romana em 1948, continha quatro mil títulos.

Entre os escritores famosos que constavam do Index estavam Daniel Defoe, Victor Hugo (inclusive a sua famosa obra Os Miseráveis), Honore de Balzac, Alexandre Dumas Pai, Gustave Flaubert, Nikos Kazantzakis, Descartes, Montaigne, Espinosa, Jean-Jacques Rousseau, Blaise Pascal, Kant, John Stuart Mill, Ernest Renan, Henri Bergson e muitos outros.

O Index foi extinto somente pelo Papa Paulo VI, em 1966, no dia 14 de junho. No dia seguinte, a decisão do papa, chamada de Notificatio de Indicis librorum prohibitorum conditione, foi publicada no Osservatore Romano.

Lamentavelmente, continua a haver muita gente que adoraria uma lista assim na sua igreja, confissão religiosa ou, mesmo, baixada pelo Estado. Nela, deviam constar todos os livros que ensinam teorias e divulgam pensamentos com os quais essas pessoas não concordam. A defesa de uma doutrina do “Pensamento Único” continua bem presente entre nós. Não debatemos ideias. Julgamos pessoas a partir do que pensam ou dizem. Não se dão conta de que, ao quererem fechar a boca de outros, abrem o caminho para que seja fechada também a deles.

Lembro aqui o poema de Martin Niemöller, que fica sempre como um alerta contra a ideia do “Pensamento Único”. Protestarei sempre que tentarem impedir alguém de manifestar seu pensamento ou que busquem criar qualquer lista do que pode ou não ser divulgado. O certo e o errado não são propriedade de ninguém. Segue o poema:

E Não Sobrou Ninguém
Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista. Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era social-democrata. Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista. Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu. Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse. (Martin Niemöller)

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