O aborto e as eleições

Dom José Cardoso Sobrinho excomungou a menina de 9 anos que abortou em 2009. Agora, o Brasil diz que ele é do bem e agiu corretamente.

No ano passado uma menina de 9 anos, grávida de gêmeos após abusos do padrasto, realizou o aborto legal na cidade do Recife. Na época, o arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, excomungou a garota, a mãe e os médicos que realizaram o procedimento na menina. O estuprador não foi excomungado, embora tivesse nome e endereço e, com certeza, registro de membro na igreja católica.

Agora, o tema do aborto voltou à discussão no Brasil por uma via absolutamente torta e questionável: é usado como golpe abaixo da linha de cintura para derrubar o adversário numa eleição presidencial. Tenta-se ganhar votos com argumentos pseudo-religiosos.

Ou são muito burros ou realmente usam de tacanha má fé para não esclarecer a flagrante diferença que há entre apoiar o aborto como meio de controle do crescimento populacional – o que seria criminoso e perfeitamente condenável – e a descriminalização de um ato cometido a rodo neste país, às escondidas, em clínicas clandestinas, longe dos olhos das autoridades, e, sim, como crime cometido bem à vista de uma sociedade de moralidade torta, hipócrita, oportunista e desmedidamente maliciosa, que faz de conta que não enxerga o que está bem à vista. A quem querem enganar com esta conversa? A mim me parece muito claro: ao eleitor, que sequer tem informação para manter o debate sobre o tema num patamar minimamente razoável.

Senão, vejamos.

No primeiros seis meses deste ano, 54.339 mulheres brasileiras foram hospitalizadas em decorrência de tentativas de interrupção de gravidez, abortos provocados (veja bem, a lei proíbe isso e prescreve cadeia para quem se submete ao procedimento e também para quem monta uma clínica clandestina para concluir o ato nefasto). Os métodos mais utilizados são os medicamentos abortivos (falsificados, fabricados sem qualquer controle, vendidos em camelôs), além de chás caseiros e práticas estranhas, como “beber três goles de água e ficar pulando”, até procedimentos altamente perigosos, como a introdução de agulhas e talos, ou a utilização de permanganato de potássio e de substâncias cáusticas. Todos os anos, 250 mulheres brasileiras morrem em decorrência de abortos provocados.

Isto não é o que será, se o aborto for descriminalizado. Isto é o que acontece neste momento, neste país hipócrita!

Mesmo assim, tem gente e, entre eles, cristãos (!), muitos cristãos, milhões de cristãos, católicos e evangélicos, que fazem deste um assunto bom para ganhar votos. Todos gente “do bem”!

Em nome das 100 mil brasileiras que, todos os anos, são submetidas a uma legislação absurda que quer mandar para a cadeia (ou excomungar para o inferno) meninas em pânico com uma gravidez fruto de abuso sexual do padrasto (muitas vezes sob a bênção da própria mãe da menina) e que, por isso, agridem o próprio corpo com agulhas de tricô ou soda cáustica, declaro aqui que sou inteiramente a favor da descriminalização do aborto no Brasil.

Não faço isto para defender qualquer partido, pois não sou nem jamais fui filiado a nenhum partido. Tenho posição e opinião independentes e procuro me informar sobre a realidade, de preferência longe, bem longe das fontes que a maioria anda lendo por aí e aplaudindo entusiasmada, como uma patética torcida de futebol.

Temos milhões de problemas num país que quer, desesperadamente, livrar-se de seu subdesenvolvimento. E debater a temática do aborto com sobriedade, inteligência, conhecimento de causa e, antes de mais nada, longe de fundamentalismos patéticos, é um bom começo para nós. Como ponto de partida, é um tema muito sério para ser debatido no calor de uma campanha conduzida por marqueteiros e jogadores de pôquer. Por isso, chega desse assunto durante a campanha. Ou amadurecemos, ou nossa estupidez nos devorará.

Comentários

  1. "A lei judaica considera o aborto como a matança de uma vida humana." (Rabino David B. Hollander, professor de Sociologia e Capelão da Força Aérea dos Estados Unidos da América).

    a questão da menina no Pernambuco reacendeu um debate que muitos procuram promover, muito embora seja anticonstititucional e contrário ao direito à vida. De minha parte não me julgo no direito de debater este caso em particular, pois entendo que é, pelas suas características, de atribuição médica.

    Quanto ao PT - Partido dos Trabalhadores, que se caracteriza por não assumir responsabilidades, ao invés de lutar pelo planejamento familiar, conforme determinado no artigo 226 de nossa Constituição Federal, prefere adotar o assassiato intrauterino como método anticoncepcional. E o que é pior, mesmo intenamento se mostra antidemocrático, pois perseguiu dois de seus deputados que adotam a decisão de serem pró-vida: Henrique Afonso (AC) e Luiz Bassuma (BA) Como partido totalitário que é, o PT impõe a sua doutrina socialista (cf. art. 1º do Estatuto do PT) e portanto, anticristã, a todos os filiados.

    Tenho observado uma voz isolada no meio católico, pode ser impressão minha, mas destaco a forma com que o Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz luta pelos valores cristãos.

    Em http://www.providaanapolis.org.br/ptotal.htm pode-se ler como o PT, por diversas vezes, impediu que seus membros pusessem obstáculo à sua agenda abortista. Veja-se o caso de Hélio Bicudo, Djalma Cotinguiba Araújo, Marina Silva, Ângela Guadagnin... O totalitarismo petista ficou patente por ocasião da votação da Reforma da Previdência, em que parlamentares foram punidos por atender ao pedido dos eleitores, desobedecendo às diretrizes do Partido. A triste história encontra-se em http://www.providaanapolis.org.br/aquemp.htm


    http://www.youtube.com/watch?v=x8JEcU1v7FY&feature=related

    http://www.youtube.com/watch?v=-uZWoifWprU&feature=related

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