A eterna Paixão dos indígenas



Hoje é o dia do índio. Aliás, esta é uma semana em que todas as comemorações religiosas e históricas de abril se fundem, num feriadão que pode passar uma borracha sobre alguns fatos relevantes. É uma mistura de datas, todas elas claras histórias de paixão, sofrimento e sacrifício extremos.

Há a inconfidência mineira (dia 21), história em que o corpo esquartejado de Tiradentes lembra inequivocamente o sacrifício violento de Jesus na sexta-feira santa. Ele, um simples peão do tabuleiro do xadrez dos nobres que queriam o Brasil separado de Portugal, pagou o pato por todos os que não podiam ter seus nomes arrastados na lama.

Há a duvidosa história de Cabral (dia 22), revelando a existência do paraíso à Europa, mais belo que o bíblico – as fulgurantes palavras da carta de Caminha viraram o discurso de posse desse paraíso, que foi transformado em mina e ajudou a sustentar o renascimento e a industrialização do Velho Continente. Fizeram de conta que isso aqui era o ninho de Páscoa reservado para os portugueses e, agora revelado finalmente, era como uma cornucópia inesgotável para deleite das elites brancas e “civilizadas”.

No mesmo dia (22), neste abril de 2011, coincide a sexta-feira da Paixão. O Jesus humilhado e destroçado, que morre em sacrifício de expiação, em clara referência aos sacrifícios que aplacam a ira de Deus (do mesmo modo como se aplacava a ira dos deuses nas Américas, durante os milhares de anos antes da chegada dos conquistadores).

No dia 24, o domingo de Páscoa, esta sim, a história da virada e a grande novidade, que a civilização branca européia não conseguiu trazer a este continente: a ressurreição, a vida que se renova, vigorosa e salvadora. Não souberam explorar esta novidade. A sua chegada não representou vida para os nativos, mas a morte, a cruz, o sofrimento e o extermínio. É a paixão infinita, que começou em 1500 e ainda não findou. Ainda não houve Páscoa na terra do Monte Pascoal. Nossa história se alongou numa interminável sexta-feira da Paixão...

Digo isso porque, em meio a tantas datas douradas, muitos esquecem o dia de hoje. O dia 19 de abril, o dia do índio, o dia do crucificado povo da Terra de Vera Cruz.

Muitos nem sabem como surgiu o Dia do Índio, uma data que foi criada em 1943, pelo presidente Getúlio Vargas, através do decreto-lei número 5.540. A data foi escolhida em referência ao Primeiro Congresso Indigenista Interamericano, ocorrido no México em 1940. Nele participaram autoridades governamentais dos países da América e líderes indígenas.

Os líderes indígenas foram convidados para participar das reuniões e decisões daquele congresso, mas não compareceram nos primeiros dias porque estavam temerosos. Era um comportamento compreensível, uma vez que os índios há séculos estavam sendo perseguidos, agredidos e dizimados pelos brancos.

No entanto, após algumas reuniões e reflexões, diversos líderes indígenas resolveram participar, depois de entenderem a importância daquele momento histórico. Esta participação ocorreu no dia 19 de abril de 1940, que depois foi escolhido em todo o continente americano como o Dia do Índio.

Neste dia do índio de 2011, é também inadiável que lembremos o envolvimento da igreja luterana com a missão indígena. Completamos 50 anos de envolvimento direto na defesa dos direitos dos povos indígenas.

Muita gente não entendeu o modo luterano de fazer missão entre índios. Partem do princípio que fazer missão é converter índios ao cristianismo. Já me confrontei diversas vezes com a pergunta fatídica: “Quantos índios viraram luteranos e se filiaram à IECLB através do trabalho do COMIN?”. Mas a IECLB optou por uma missão de solidariedade e convívio com o mínimo de interferência cultural (inclusive religiosa) sobre os povos com que se envolveu neste meio século.

De certa maneira, foi também uma caminhada de muito sacrifício, com fortes lances de paixão em diversos momentos críticos dessa história apaixonante. Poderíamos citar diversos nomes que fizeram esta caminhada – uma das poucas em que a IECLB se envolveu até a medula numa causa social de extrema urgência e relevância. Não vou citar nenhum nome, com medo de esquecer alguém muito importante.

São os nomes das pessoas que se envolveram com as comunidades indígenas, no meio de florestas ou de regiões inóspitas e longe de tudo, sem cobrar qualquer direito a um mínimo de comodidade ou conforto. Em diversos casos, deixaram a “civilização” ser apenas um apagado reflexo na sua memória, até com sacrifício da própria saúde e risco de vida por falta de segurança... Tudo para tornar a relação com a missão que abraçaram total, completa e visceral. Todos são heróis, no verdadeiro sentido da palavra; apóstolos, prontos a ir até o martírio em nome da causa.

Por isso, neste 19 de abril de 2011, a minha homenagem no dia do índio vai para todos esses intrépidos missionários. Eles foram e são exemplos do que é realmente “colocar a mão no arado sem olhar para trás”. Fizeram isso, na maioria das vezes, debaixo de muita crítica, incompreensão e falta de apoio até institucional. Alguns foram até jogados aos leões, como os primeiros cristãos.

Poucos se importaram com o que lhes aconteceria, nessa luta diária por um mínimo de justiça para os seus irmãos indígenas. Antes, esses heróis foram duramente criticados por sua coragem e ousadia missionária. Ouso até dizer que muitos, sentados em seus escritórios pastorais rodeados de belas capas de livros na estante e muita sabedoria oca sobre a escrivaninha, em meio ao conforto da casa pastoral, jogaram solenemente na lata do lixo o material destinado a trabalhar o tema da missão indígena com os confirmandos e grupos comunitários. A esses heróis, reais, de carne e osso, com nomes reais e constantes no prontuário da nossa IECLB, a minha mais emocionada homenagem neste Dia do Índio.

Comentários

  1. Eu agradeço muito estas palavras carinhosas da sua crônica! Não somos heróis, somos apenas missionárias/os – nos comprometemos com a missão de Deus neste mundo! Eu encaminhei a mensagem para todas/os do COMIN! Obrigada pela lembrança.
    Cledes Markus

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  2. Gostei dessa idéia de mencionar os sofredores da nossa história na semana do sacrifício. Muito oportuno!
    Ervino Schmidt

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  3. Caro Clóvis,
    obrigado por essa generosa lembrança. Entretanto, não há heroísmo, apenas compromisso com uma causa com a qual a IECLB está envolvida desde o seu surgimento imigrante. Nós exercemos acompanhamento solidário e os povos indígenas nos ensinam saberes capazes de nos tirar do beco desenvolvimentista e consumista sem saída em que nos metemos. Queremos todos/as nos engajar para aumentar o número de pessoas que assumam a tarefa de se solidarizar com os povos indígenas e de aprender de sua sabedoria e espalhar esperanças de um mundo em que nós humanos possamos sobreviver.
    Hans Alfred Trein, Coordenador do COMIN

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