Realengo, uma assinatura de sangue



A lamentável tragédia humana no Realengo, no Rio de Janeiro, infelizmente, deixa uma assinatura de sangue, muito sangue, embaixo do que eu disse aqui neste blog e no Santa há algum tempo sobre a questão do desarmamento. A capa da santa VEJA serve de lembrança para os senhores das armas, que são, afinal, os culpados pelo massacre do Realengo. Na época, fui linchado virtualmente, até pelo presidente da entidade que comandou a derrota do desarmamento no Brasil. Fui acusado por diversos internautas de estar defendendo uma causa amplamente derrotada naquele plebiscito e que eu deveria calar-me, portanto. Relembre você mesmo em http://clovishl.blogspot.com/2009/11/um-debate-com-cheiro-de-polvora.html.

Ninguém quis entender. Ninguém quis ouvir que ter arma em casa leva também a tragédia consigo. Sem armas, Wellington não teria como executar seu tresloucado projeto assassino. E olha que ele entendia de armas. Uma das poucas armas que eu já vi na minha vida é o famoso 38. Fiquei sabendo, depois dessa loucura de Wellington, que existiam carregadores rápidos para essa arma que, teoricamente, pode dar somente seis tiros. E ele usou os carregadores por nove vezes antes que impedissem a continuação alucinada do seu tiro ao alvo humano.

Pois, senhores das armas, volto à carga. A vitória num plebiscito não o torna a única verdade. E os derrotados, mesmo sendo a minoria, podem continuar defendendo a sua visão sobre tudo isso. Nem sempre maioria é sinônimo de estar certo. Hoje, graças à ampla campanha de desinformação que os senhores perpetraram em 2005, adquirir uma arma de fogo no Brasil se tornou tão simples quanto tomar um café expresso.

Em 2005, o Brasil teve a chance histórica de se desarmar. Um referendo colocou uma única questão diante do eleitor: a venda de armas de fogo deve ser proibida no Brasil? Sim ou não? E o “não” venceu depois de uma ampla campanha de desinformação financiada por interesses privados. Uns diziam que só os bandidos teriam armas – como se os “homens de bem”, armados, pudessem fazer algo diante de criminosos. Outros afirmavam até que se tratava de uma iniciativa totalitária do governo Lula, que marchava rumo ao chavismo. Diziam umas asneiras absolutas, comparando o referendo ao que Hitler fez na Alemanha, confiscando as armas dos cidadãos e desarmando o povo.

O resultado de tudo isso é que, no ano do referendo (2005), o Brasil comercializava 68 mil armas de fogo. Cinco anos depois (2010), foram quase 120 mil. Mas os senhores das armas dirão, justificando, que o assassino do Realengo deve ter comprado suas armas no mercado paralelo. Pior ainda. Se ele adquiriu os revólveres 38 e 32 no mercado oficial, é um escândalo. Se fez isso no paralelo, um escárnio (Leonardo Attuch, na IstoÉ desta semana).

O resultado desse descontrole sobre as armas pode ser transformado em números alarmantes. Enquanto os EUA têm 311 milhões de habitantes e teve 15 mil pessoas mortas por armas de fogo no ano passado, o Brasil tem somente 190 milhões de habitantes e 50 mil mortos por armas de fogo a cada ano. É uma terra sem leis, em que aquelas que existem estão sob o jugo de fortes interesses particulares... uma terra em que policiais decidem aplicar a execução de criminosos sem a menor cerimônia, mesmo que não haja pena de morte e haja tribunais para julgar os que transgridem a lei.

Mais do que uma campanha de desarmamento, o que o Brasil precisa é de um novo referendo. Diga não às armas. E se você tiver uma em casa para defender-se dos ladrões, saiba que há mais de noventa por cento de chance de você morrer, caso reagir a um bandido armado que invada a sua casa ou tente assaltá-lo na rua. A sua defesa, portanto, pode ser a sua sentença de morte.

Comentários

  1. Pastor Clóvis, tirar as armas equivale ao sujeito que sendo traído pela esposa no sofá da sala, se livra do sofá. Os Estados Unidos possuem cerca de 100 milhões de armas, nós cerca de 16 milhões, daí não vejo a lógica da sua afirmação. Na Suíça, todo cidadão que prestou serviço militar tem as armas em casa para o caso de uma emergência militar e nem por isto saem se matando. Mania de querer simpli-ficar as coisas por baixo. Se naquela escola tivesse ao menos um cidadão de bem armado ele poderia ter dado fim ao descalabro.

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  2. Gilson, a minha afirmação é tão simplista quanto o fato de que Wellington, até o momento da loucura que cometeu, era um "cidadão de bem". Não tinha ficha na polícia, não era procurado por desrespeitar a lei, não tinha diagnóstico de psicopatia e entrou na escola alegando que veio "fazer uma palestra". Portanto, estava 100% dentro do perfil defendido pelos que querem manter armado o "cidadão de bem". E tão simplista quanto a afirmação de que não estamos numa guerra, mas vivemos em sociedade. E a vida em sociedade, meu caro, é regida por leis; não pela justiça de cada um, feita pelas próprias mãos.

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