Livros podem virar vassouras?



Essa imagem é muita maldade. Veja o que fizeram com um exemplar da Encyclopedia Britannica, uma das mais espetaculares obras já publicadas sobre o conhecimento humano em todos os tempos.

Pois é, sempre que vou a um desses sebos que vendem livros velhos e me delicio com obras fantásticas, que as pessoas vendem ao risível preço do seu peso em papel, não consigo tirar os olhos de dezenas de exemplares de enciclopédias Barsa, Delta Larousse e outras. Tenho composto parte da minha biblioteca com livros comprados nesses sebos. E eu tenho uma enorme dificuldade em jogar livros fora. Mesmo desatualizados eles ficam lá, como sábios anciãos, no seu lugarzinho de destaque na estante.

Quando eu era criança, o meu pai não tinha dinheiro para comprar uma Barsa. Em seu lugar comprou, caprichosamente, cada um dos fascículos da Enciclopédia “Conhecer”, que eram vendidos pela Abril. Foi uma luta para o meu pai, mas ele comprou todos, inclusive as capas. Nunca fez a encadernação porque estava além de suas posses. Lamentavelmente, a enchente de 1983 em Rio do Sul acabou com ela, coitada. Ainda posso ver a “Conhecer” nos sebos. Ela está sempre lá, impávida, em cada um deles, abandonada que nem carro velho e empoeirado, mas trazendo velhas e belas lembranças à minha mente.

Outra coleção que está sempre lá nos sebos – e que eu comprei mensalmente na época de ouro da Abril – é aquela dos clássicos da literatura mundial, encadernada primorosamente, com dezenas de obras de autores como Camões, Homero, James Joyce, Shakespeare, Edgar Allan Poe e tantos outros. Tenho ela todinha. É a jóia da minha biblioteca. São os clássicos, que poucos valorizam, mas todos deviam ler. Ah, o mundo seria muito diferente se mais pessoas lessem algumas dessas obras.

Agora, com enciclopédias, na era do Google, não dá nem para xingar o maldoso que fez isso daí com a Britannica. Hoje em dia, enciclopédias envelhecem mais depressa do que é possível atualizar. O que tem dentro da Brittanica, por exemplo, a humanidade levou cinco mil anos para produzir. O mesmo conhecimento, novinho em folha, foi acrescentado somente nesses primeiros dez anos do século 21. É muita informação. É muita rapidez. Tem que ter um meio como a internet para divulgar tanta coisa nova.

É triste ver uma obra dessas ser transformada em vassoura... Mas eu me peguei pensando coisa parecida ao lembrar de uma majestosa RGG que eu tenho na minha estante. Para quem não sabe, trata-se de uma espetacular enciclopédia sobre religião, produzida na Alemanha por milhares de especialistas ao longo da história: “Religion in Geschichte und Gegenwart”. RGG, simplesmente. Eu tenho oito volumes, que pesam mais de cinco quilos cada um, impressos ainda antes da primeira guerra mundial. Hoje ela tem mais de 20 desses calhamaços. É um monumento lindo, fonte inesgotável de saber. Não vou fazer isso por causa do meu amor incondicional pelos livros, mas que eles davam belas vassouras como esta aí da foto, isso davam...

Sacrilégio, quê maldade!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O ócio e o negócio

O boato do filme Corpus Christi

Origem do termo “América Latina”