Sabemos quem temos apoiado?



Nos conflitos que ora estão em curso no Chifre da África e em outras partes do mundo, o ocidente tem pedido que seus países interfiram e ajudem a resolver. Assim, a OTAN tem se envolvido em inúmeros conflitos e a ONU em tantos outros. A maioria de nós apoia esse tipo de ingerência, sempre sob o mote de que “alguém, afinal, tem que fazer alguma coisa!”.

O último caso típico é o do apoio do ocidente aos rebeldes que tentam derrubar Kadaffi na Líbia. A França e a Grã Bretanha, por exemplo, até chegaram a cobrar que a OTAN não tem feito o suficiente, nem agido com o necessário rigor, para pôr um fim mais rápido aos desmandos do ditador desprezado por todos.

Não que eu tenha algo a favor de Kadaffi, longe disso. Mas, assim como não tenho nada a favor do ditador líbio, também não tenho um pingo de apoio a dar a esse tipo de ingerência de umas nações sobre o destino das outras. Pelo simples fato de que, amanhã, alguém cisma com o nosso governante, que nós escolhemos, e resolve ajudar rebeldes a derrubá-lo, sem perguntar pelas reais razões. O grande problema é justamente esse: em nome do fim de um ditador, mal se pergunta pelo tipo de causa rebelde que se está apoiando no momento.

É justamente esse tipo de avaliação prévia que não tem sido feita com o necessário cuidado. O jornalista espanhol Pascual Serrano levantou vários casos do passado, em que houve o apoio do ocidente a rebeldes que conseguiram derrubar seus ditadores, e depois só pioraram a situação do povo e do país. Ele começa um extenso artigo no site “Rebelión” com o intrigante título “Os libertadores que apoiamos vieram a ser traficantes de órgãos”.

O primeiro exemplo que ele cita ocorreu em 1991, quando as grandes potências ocidentais, lideradas pela OTAN, foram a uma guerra para libertar o Kuwait da invasão de Sadam Hussein. Um apoio justo e inquestionável. Entretanto, esses apoiadores tornaram-se cúmplices de violação aos direitos humanos porque apoiaram um posterior regime ditatorial que se instalou no Kuwait, em que os partidos políticos estão proibidos, as mulheres precisam da autorização dos seus maridos para pedir passaporte, a pena de morte está em vigor e o emir do Kuwait é o dono da vida das pessoas.

O exemplo que dá título ao texto de Serrano revela que o diário espanhol El País de 10 de abril descobriu uma rede de tráfico de órgãos extraídos pela guerrilha de Kosovo dos presos sérvios, durante a guerra da Iugoslávia, que custou a vida de cem a trezentas pessoas. Trata-se da mesma guerrilha que a OTAN apoiou durante o conflito contra a Sérvia. Logo após o fim da guerra de Kosovo desenvolveu-se um monstruoso negócio de tráfico de órgãos conduzido pelos dirigentes da guerrilha.

Há acusações de que o próprio atual primeiro ministro de Kosovo é um dos principais responsáveis pelo crime organizado na região. Segundo o jornal, a clínica clandestina que extraía os órgãos ficava na Albânia, enquanto os prisioneiros amputados eram eliminados com um simples tiro na cabeça, enquanto o “cliente” em uma capital estrangeira estava preparado para receber o órgão extirpado do prisioneiro. O órgão era transportado de helicóptero via Istambul.

Assim são tratados os direitos humanos em diversas realidades que receberam amplo apoio da OTAN, da ONU e dos Estados Unidos. E como deram apoio, agora estão comprometidos e não podem retirar o apoio simplesmente, mesmo com evidências gritantes, como essa do tráfico de órgãos humanos pelos rebeldes de Kosovo. Bem dizia Paulo Freire, já no prefácio do seu livro "Pedagogia do Oprimido": Em cada oprimido oculta-se também o germe do opressor. Pois é.

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