Ressaca social


O carnaval passou e, com ele, os dias mais agitados que encerram os meses de letargia na Terra Brasilis. A festa, como sempre, deixa atrás de si um rastro de ressaca e gosto de cabo de guarda-chuva na boca de muita gente. E isso vale tanto para quem desfilou na avenida, passou as madrugadas numa arquibancada, no meio da rua pulando atrás de um trio elétrico, integrando o cortejo dos foliões que seguem os bonecos de Olinda, ou até quem ficou em casa, na frente da TV, assistindo a tudo no conforto do lar. Tudo valeu, em nome da alegria. Mas nem tudo foi, digamos, louvável, aceitável ou mesmo condizente com um jeito civilizado de levar a vida.

Virou notícia ontem a história lamentável da interrupção violenta da apuração da pontuação do desfile das escolas de samba de São Paulo. Tudo ali não acabou em samba, mas em grossa pancadaria. Como aconteceu diante das câmeras, virou notícia. Mas certamente não foi um ato isolado, nesse imenso país do carnaval, do carteiraço, do “sabe com quem está falando?”, do pacífico mas nem tanto.

Então o cara simplesmente surta só porque não concorda com os resultados que vão aparecendo no placar da apuração? E então começa uma quebradeira geral, para demonstrar sua contrariedade? Lembra o cara que surtou com a falta de segurança e, sentindo-se perseguido, saiu pelas ruas dando tiros em todo mundo, confiscando carros alheios para dar suporte a sua fuga desvairada e batendo aqui e ali em veículos, pessoas, postes e muros. Lembra o filho que, cansado do controle da mãe, a matou “para ter um pouco de paz”. Lembra o cara que mata um desconhecido porque quebraram um espelho do carro dele. Lembra o cara que começa um tumulto no estádio porque o juiz pretensamente prejudicou o seu time. Lembra tantas situações de explosão emocional, em que as pessoas perdem a cabeça por motivo fútil e vão logo resolvendo as coisas no grito, na porrada, na bala.

A nossa sociedade está psicologicamente doente. E o seu estado de psicose é grave. É uma doença que não atinge somente onde estão os jornalistas, as câmeras ou os celulares, cada vez mais parecidos com equipamentos sofisticados de filmagem. Ela está em todos os cantos. A contrariedade gera violência. Agride-se verbalmente a professora do filho porque ela chamou a atenção do moleque no pátio da escola. O aluno enche o mestre de pancada porque não estudou e tirou uma nota baixa, ou o processa por danos morais por cobrar um trabalho escolar que deveria ter feito e não fez. Ataca-se virtualmente alguém que nem se conhece por emitir uma opinião contrária em seu blog, que o outro considera “ideologia”.

Foi-se o cuidado, foi-se o respeito, enterrou-se o bom senso. Estamos à beira de um ataque de nervos social. E isso, por mais bonito que seja o samba, o desfile, a fantasia, estraga a festa, entorna o caldo, mancha o piso. Estamos precisando de doses cavalares de bom senso, de respeito, de aceitação do outro e de limites da própria pseudo-liberdade que nos escraviza. Em matéria de liberdade, toda moderação é recomendada, porque o excesso causa uma ressaca danada, que faz doer o corpo todo. E o corpo que dói nessa ressaca é o corpo social.

Comentários

  1. Concordo que estado de psicose da nossa sociedade é grave. As pessoas não se suportam mais, o trânsito é um bom exemplo disso. Assisti ainda pouco a no Jornal Hoje as cenas da apuração dos votos e é lamentável o descontrole de tanta gente... Seria isso a resposta subconsciente de uma sociedade que amarga as causas de um capitalismo que privilegia poucos? Seria isso um movimento anarquista sem cosciência de seus efeitos colaterais? ou basicamente falta de amor ao próximo e Deus no coração?

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