Vida de porco vira música



O britânico Matthew Herbert é um músico que trabalha com sons criados na natureza e pela vida e os aproveita eletronicamente. Ele já trabalhou para Björk e Róisín Murphy, além de ter lançado mais de uma dezena de discos das mais variadas vertentes da música eletrônica. Ele é também um dos pioneiros na utilização de sons reais e comuns em seu processo de composição, além de projetos com forte conotação política. Seu disco The Mechanics of Destruction foi feito a partir da destruição de embalagens do McDonald's e de camisetas da Gap, em protesto contra a globalização.

"Está acontecendo uma grande transformação na música. Nos últimos quatro mil anos fomos impressionistas e tentamos imitar sons com instrumentos. Hoje podemos também ser documentaristas, transformar sons reais em música. Tento amplificar as coisas que vejo, criar uma hiper-realidade, ir além do que realmente podemos escutar", declarou o músico à DW Brasil.

Agora Herbert apresenta nos palcos alemães seu último trabalho, One Pig, que é o documentário sonoro da vida de um porco, do nascimento até o seu consumo. O novo trabalho de Herbert gerou polêmica e foi alvo da ira da organização de direito dos animais Peta, que condenou o disco antes do seu lançamento.

Ao tematizar a trajetória da vida de um porco do nascimento ao banquete, Herbert abre a discussão de assuntos como moral, direitos dos animais e política. A obra mostra que devemos ver a música mais do que simples decoração e enfeite. Ela pode também ser um meio para debater assuntos tão polêmicos quanto este.

No disco, a trajetória do suíno é apresentada em diversas camadas eletrônicas. As primeiras faixas são mais calmas e retratam os primeiros meses de vida do porco. Quando o porco já está maior, é transferido para um ambiente metálico e a atmosfera criada pela música é mais sombria e agressiva, com resquícios de techno se misturando aos gritos do animal. Após a morte, quando está sendo fatiado, o som é cirúrgico, repetitivo e perturbador. Já o banquete é representado por um estranho e sombrio dubstep. O disco termina com uma canção de ninar, uma homenagem gravada na fazenda onde o porco viveu.

"Eu não tinha nenhum controle ou expectativa. Meu trabalho era documentar e com isso contar uma história e amplificar esse ruído. A verdade por trás desse disco é que tratamos os animais de uma maneira horrível", explica Herbert.

Praticamente todos os dias na fazenda, o músico evitou envolver-se diretamente com o porco, como dar comida a ele ou dar-lhe um nome. Ele também não foi autorizado a participar do abate do animal, o que é proibido a não profissionais no Reino Unido. Entretanto, apesar de todos esses cuidados, o músico diz que se envolveu tanto com o animal que ficou triste ao receber a sua cabeça num saco plástico. No banquete, após o abate, ele comeu somente um pedacinho do porco e, apesar de não ser vegetariano, diz que não consegue mais comer carne de porco depois de ter feito esse disco.

Para apresentar o espetáculo nos palcos, Herbert construiu um instrumento que reproduz os sons do porco, uma espécie de harpa-sintetizador, cujas cordas são acopladas a um sistema de videogame, que foi reprogramado para emitir os ruídos do porco. O sistema foi desenvolvido pelo músico e artista digital Yann Seznec. Isso permite a sobreposição de sons, efeitos, teclados e bateria no próprio palco, sem usar bases pré-gravadas.

"Tocar os sons do porco é também uma maneira de mantê-lo vivo", argumenta Herbert, que ficou muito desapontado com a posição do Peta. Ele fez o disco para tratar de temas relacionados a vida e morte. “Nossa sociedade dá diferentes valores a vida dos seres humanos, de acordo com sua origem, classe, etnia e religião”, lamentou Herbert. (Com informações de DW-World)

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