Namoro é olho no olho



Quando o assunto é amor, muita gente acredita em predestinação. O homem ou a mulher com quem vamos estabelecer uma relação por toda a vida cruzará o nosso caminho em algum momento – e quando isso acontece a gente vai perceber, com certeza. Mas nem sempre o parceiro dos sonhos aparece assim, do nada.

Os sites de relacionamento na internet prometem uma ajuda bem substancial nessa busca. Esses sites são especialistas, e organizam a busca pelo grande amor do mesmo modo que um site de vendas de carros ou de imóveis. Basta preencher um questionário com os dados solicitados e o site promete arrumar a pessoa certa para você. Interesses, gostos, desejos devem ser todos relacionados com todo o cuidado, para que o site se encarregue de organizar o algoritmo que combine com você. Segundo os especialistas que elaboram o perfil do site, tudo é conduzido segundo regras baseadas em preceitos científicos.

Muita gente confia cegamente nos relacionamentos construídos virtualmente e há cada vez mais pessoas com histórias emocionantes de um grande amor que começou pela internet.

Dois psicólogos americanos, entretanto, acabam de publicar um estudo que questiona esse tipo de busca virtual pelo grande amor. Segundo um estudo do psicólogo Eli Finkel e seus colegas da Nordwestern University, publicado na revista especializada Psychological Science in the Public Interest, os sites de relacionamento não têm condições de prever o acerto ou o fracasso futuro das relações que arranjam.

Hoje as grandes revistas e jornais de todo mundo têm sites parceiros que se encarregam de arranjar companhia para os solitários e desejosos de viver um amor inesquecível. Em todos eles, os solteiros começam preenchendo um extenso formulário, que serve para construir um perfil pessoal como base da parceria entre o usuário e o site. Com o perfil esses sites apenas conseguem encontrar pessoas parecidas entre si, quando uma das regras de um relacionamento perene é a velha frase “os opostos se atraem”.

Segundo o estudo dos psicólogos americanos, nenhuma fórmula matemática é capaz de atrair dois solteiros para construir uma relação amorosa de longa duração. Não está em discussão a existência de métodos que ajudem um casal a ter uma relação duradoura. Mas esses sites não dispõem das informações realmente necessárias para dar as garantias que anunciam. Como um bom exemplo, a forma como um casal discute e soluciona suas diferenças de opinião é decisiva para diagnosticar a satisfação mútua numa relação.

Frases soltas num site de computador não servem para encontrar o parceiro ideal, dizem os cientistas. E alguns desses sites literalmente sufocam pretendentes com perfis de prováveis pessoas que possam combinar com eles. “Isso dificulta muito a tarefa de encontrar o parceiro potencial em meio a tantos perfis”, dizem os psicólogos. É até difícil encontrar alguém que poderia ser uma boa promessa em meio à avalanche de perfis. Há um enorme risco de encantar-se com características que pouco contribuirão no futuro para um relacionamento significativo.

Um dos pontos principais da crítica dos psicólogos ao método virtual de construir um relacionamento permanente é a total ausência de um contato real, olho no olho, entre os pretendentes. Questionários e e-mails são frequentemente usados para o “embelezamento” do perfil e até podem levar à construção de um perfil fictício ou repleto de inverdades, coisa muito mais difícil de manter por longo tempo num contato pessoal, direto, e até mesmo através do telefone.

Além de poder representar frustração e decepção, há um risco pouco considerado nesse tipo de busca por um parceiro. Os perfis construídos nessa busca não raro servem de base para fins escusos e são usados para compor perfis de consumidores, que depois são vendidos por muito dinheiro.

Cá entre nós, o velho e bom método de se arriscar numa relação real, sem se atirar com muita pressa, preferindo dar tempo ao tempo para conhecer o outro e permitir que ele nos conheça, ainda é o caminho mais recomendado para construir um amor sólido e duradouro. Experimente sair da frente do computador e olhar para o rosto da outra pessoa, observando, ao vivo e a cores, o quão interessante pode ser. Dê tempo ao tempo e não atropele as coisas. O amor é química e não há bites ou megabites capazes de transmitir a sensação real do frio na espinha de uma relação que começa “à primeira vista”, olho no olho. Quem já passou por essa sensação incrível, jamais esquece.

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