Quando tudo está perdido...



Por que o ser humano só se dá conta de determinadas urgências com o tempo?

Um exemplo. Não há nada mais falado, alertado e pisoteado na atualidade do que a temática ambiental. Todo dia o tema está na TV, no facebook, em spams de e-mails e até nos anúncios das grandes corporações que, de modo geral, contribuem decisivamente para a degradação ambiental. E é no Dia do Meio Ambiente (se ele existe, é porque todos sabem da gravidade da situação!) que o tema chega a cansar a gente.

Muitos discursos com teor ambiental servem largamente para aplacar as consciências e para dizer ao mundo “eu estou fazendo a minha parte”. Sustentabilidade, por exemplo, virou jargão de discurso ambientalmente correto para empresas que não mudaram uma vírgula em seus procedimentos agressivos ao meio ambiente.

Economia verde virou uma identificação colorida para os sepulcros caiados da economia ocidental. Branquinhos por fora e cheios de ossos e podridão por dentro, os principais países da economia mundial se fingem de mortos quando o assunto é cortar na própria carne para salvar o planeta.

Os EUA na frente consomem, sozinhos, a metade dos recursos energéticos do planeta e, com a sua economia numa crise braba, não querem nem ouvir falar em cortes. A China, que tem um sexto da humanidade para alimentar, não vai parar as turbinas para “esverdear” a economia mais poluente do mundo. E a lista pode continuar até chegar ao Brasil, joga o discurso verde no lixo para continuar a faturar alto com o agro-business. A Europa até tem uma relação mais cabeça com o tema ambiental, desde que os outros botem a mão no fogo para salvar o planeta, de preferência os emergentes.

Já está claro até aqui que o Dia Mundial do Meio Ambiente é mais um daqueles dias para enfeitar calendário. A poucos dias da Rio+20 é uma constatação que nos trava dos pés à cabeça. Vão gastar uma fortuna e sonhar grandes sonhos, cujo destino todos já conhecem: as gavetas, que hoje são virtuais. Há HDs lotados com terabites de delírios ambientais que não se concretizam.

No final de semana o Jornal de Santa Catarina produziu uma capa contundente, toda branca com um quadradinho verde no meio, comparando o estado de Santa Catarina ao tamanho do que sobrou da Mata Atlântica. Comovente, mas inócuo. Ainda tem gente demais em nosso meio querendo acabar com o Parque da Serra do Itajaí, onde fica o berço das nossas águas preciosas. No dia seguinte, o Santa mostrou que ainda há quatro pumas vivendo no parque. E não foi difícil encontrar gente que achou isso um perigo e, se topasse com uma das quatro, não pensaria duas vezes em abatê-la com o discurso do perigo que representava.

Mas isso tudo chega ainda mais perto de nós. Quando falei que a gente se dá conta da urgência de certos temas somente com a idade, eu me referia ao comportamento dos jovens em relação ao tema ambiental. Eles sabem o que os espera no futuro. Mas não estão nem aí, literalmente. Continuam a festa do consumo. Não se envergonham de atitudes porcas, como livrar-se da embalagem de qualquer coisa no meio da rua (vi isso diante dos meus olhos por duas vezes só nas últimas 48 horas). Não ficam nem corados... A professora que dedicou horas ao discurso do cuidado com o ambiente na infância deles deve sentir-se a pior das pessoas, ao ver isso.

Olha, já não sei mais o que fazer. Vou agarrar-me às poéticas palavras de Renato Russo, para não desistir: “Quando tudo está perdido, sempre existe um caminho. Quando tudo está perdido, sempre existe uma luz”. Tenho fé e esperança...

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